Fofocas e indicações políticas condenam o ex-presidente Lula a 12 anos de prisão

Dizem que fofoca não fazem mal a ninguém. Mas isso não vale para o ex-presidente Lula.




As fofocas contribuíram para a condenação de Lula a 12 anos e um mês de prisão, nesta quarta-feira, 24 de janeiro.

As provas contra Lula foram uma enxurrada de fofocas e atos totalmente pertinentes ao presidente da República, ou seja, fazer política para poder governar o país.

No caso da corrupção da Petrobras, parte tratada nesse texto, o desembargador relator João Pedro Gebran Neto, do TRF-4, fez um arrazoado de fofocas e relatos de que Lula teria indicado, ou teria costurado a indicação de tal ou qual diretor. Ou seja, Lula é acusado de fazer política. Ao analisar a fala do desembargador, nada sobra. Se alguém duvidar, vá mais abaixo que tem o vídeo para se comprovar.

Essas mesmas fofocas e acusações fazem parte do jogo político e democrático. Elas são acusações que foram feitas por adversários políticos de Lula e pela própria imprensa durante vários anos. Até aí tudo bem, mas agora virou peça condenatória. O próprio Gebran reconhece em determinado momento da fala que são frágeis. Sim, Gebran reconhece que nada há para condenar ‘separadamente’. É inacreditável.

A tese é fabulosa e nega completamente a política. É uma tese de adversário durante uma disputa eleitoral, não de um tribunal. É vergonhoso o voto de Gebran. Lula é condenado por tomar ciência de indicações na Petrobras como presidente da República e foi eleito justamente para isso, para tomar decisões. “Episódios como a nomeação de Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Jorge Zelada entre outros não deixam margem às dúvidas de sua intensa ação dolosa no esquema de propina”, diz inacreditavelmente o relator Gebran.

Veja os trechos em que Gebran cita o ex-presidente Lula no caso da acusação relacionada à corrupção na Petrobras, conforme a fala de depoentes. É algo inacreditável um político ser condenado por essas frases:
“A atuação do apelante Luiz Inácio Lula da Silva decorreu do amplo apoio que deu para o funcionamento do sistema ilícito para captação de recurso com a interferência direta na nomeação de dirigentes da estatal” (Opinião)
“é cristalina capacidade de influência do ex-presidente no processo de nomeação dos agentes políticos na Petrobras e sua ciência a respeito do esquema criminoso”, diz Gebran para convencer a si mesmo. (‘Cristalina’ é um adjetivo que não prova nada, mas usa da retórica para convencer o interlocutor)
“Na ocasião ele foi informado que o presidente Luiz Inácio tinha conhecimento” (Fofoca)
“Assim foi nomeado diretor da BR Distribuidora, segundo informações que lhe foram repassadas então por José Eduardo Dutra seria do conhecimento do então presidente Lula”(Fofoca)
“Não passa desapercebida, portanto, a capacidade de influência do ex-presidente no processo de nomeação dos agentes políticos da Petrobras e sua ciência a respeito do esquema criminoso” (Ação como líder político)
“Episódios como a nomeação de Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró e Jorge Zelada entre outros não deixam marge às dúvidas de sua intensa ação dolosa no esquema de propina” (Indicação ou nomeação é prova de um crime!)
“E aí ele diz, eu não participava das reuniões, o meu depoimento é um depoimento político…portanto se não me contassem as conversas do Palácio do Planalto eu sabia por outras vias sempre”.(Fofoca)

Em certo momento, Gebran reconhece que não tem provas e faz malabarismo para condenar Lula e tenta remediar: “Se tomados separadamente, cada um desses depoimentos podem parecer frágeis”, afirmou João Gebran.
“Ja tínhamos acertado que a indicação seria nossa,… e isso ficou definido que o presidente Lula chegasse a uma conclusão nisso. Isso estava demorando 6 meses. Nós fizemos uma obstrução na Câmara,(chantagem) estávamos sendo enrolados, não saíam as nomeações. José Dirceu disse que não poderia resolver isso, que precisaria de conversar com o presidente Lula” (Após a chantagem política de bloqueio na pauta da Câmara, Lula teria exigido a nomeação de Paulo Roberto Costa). São palavras do Pedro Corrêa. A nomeação ocorreu. Nós desobstruímos a pauta, e as coisas começaram a tramitar”. (Presidente é culpado por resolver uma chantagem política de uma partido aliado)

O único depoimento que fala em propina do presidente Lula, justamente o inocenta: “Asseverou desconhecer que o então presidente Lula tivesse pedido propina, embora narrasse a sua intensa participação nos negócios da estatal”. (Indício forte de inocência de Lula)
“Isso foi na reunião do conselho, Gabrielli (ex-presidente da Petrobras na época) me disse que o presidente Lula tinha dito: “ó não tem como, o Cerveró terá que ser substituído” (fofoca)
“E ele falou(…) ontem o Lula já acertou, você vai hoje, vai ser indicado” (fofoca)

É isso que teve contra Lula na primeira parte do voto de Gebran. É loucura total.

O lugar de cada um na História



A História se lembra de um deles. O outro foi para a lata do lixo!




Conhece os dois homens da foto?

O primeiro você sabe, não vou apresentar. Já o segundo é o juiz que condenou o primeiro a prisão perpétua por motivos claramente injustos e políticos.

A história só registrou em seus anais o nome de um deles.

Você sabe qual.






POR QUE É PRECISO LUTAR?

Foto: “Dom Quixote e Sancho Pança no Cavalo-de-pau“, Cândido Portinari (1956)

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais, responsável pelo blog Sustentabilidade e Democracia.



O primeiro esboço deste artigo tinha como título: “O Fim do Estado de Direito”. Entretanto, logo após uma reflexão, notei que iria apenas retratar algo que já está extinto há muito tempo no Brasil. O circo armado para o julgamento de Lula, no processo de “corrupção fantasma”, que só existe na mente dos magistrados que conduziram a causa, é apenas mais uma pedrinha depositada no túmulo do Estado de Direito. Este começou a morrer com o paradoxo de Rosa Weber, “não tenho provas, mas tenho convicção”, passou pelo golpe de estado que afastou Dilma Rousseff, pelas centenas de prisões cautelares abusivas executadas pela justiça federal do Paraná, por conduções coercitivas de pessoas com endereço certo sem serem citadas, pelo desmonte de políticas públicas, pelo congelamento do orçamento das políticas sociais por 20 anos visando garantir os interesses do mercado financeiro, pela execução de verbas alimentares pelo STJ para atender interesses de bancos, pela vigência de um estado policial permanente, onde um jornalista é chamado em juízo (Eduardo Guimarães) por juiz despótico (Sérgio Moro), visando quebrar o sigilo da fonte. Ou seja, não é possível declarar o fim daquilo que não existe mais!

Mas aí vem a pergunta, neste cenário de tragédia, qual é o papel da esquerda? Resposta simples: Lutar! Nunca, em momento algum da nossa história foi tão importante lutar! A ditadura tecnocrática e togada não é muito diferente das demais que já passamos, talvez apenas com uma falsa legitimidade formal. Todavia, não falo de uma luta acrítica, submissa, regida por um calendário eleitoral, mas por um processo crescente de mobilização em torno da transformação social.

De nada vale sentar na cadeira e reproduzir hábitos conservadores. Os espaços de fala, duramente conquistados pelo campo de esquerda, devem ser valorizados para defender ideias que promovam verdadeiras mudanças. De nada adianta querer combater a violência social e o tráfico de drogas com mais violência, é preciso investir em políticas inclusivas e de valorização da cidadania. Participação social, economia solidária, educação popular, inclusão produtiva, sustentabilidade são ações essenciais, que devem ser colocadas em prática todos os dias.

Nós devemos colocar a nossa consciência a serviço de uma nova ordem, onde duas palavras sejam as bandeiras principais: esperança e transformação! Sem esperança, nos tornamos presas fáceis para os donos do poder. Transformação é o nosso horizonte e começa internamente, no nosso espírito.

Portanto, quando te proporem o silêncio, a acomodação, a submissão, não tenha medo de dizer: EU NÃO ACEITO! É somente não aceitando a opressão que vamos poder mudar o que está posto!

Homenagem a João Candido, líder da Revolta da Chibata

Ilustração Robson Araújo – Livro Diário de bordo do Almirante Negro




Trecho do livro infantojuvenil (Diário de bordo do Almirante Negro, de Elisabete Nascimento) que apresenta a ficcionalização da Revola da Chibata ocorrida em 1910. A obra recupera a memória do protagonismo de João Candido, líder do movimento de insubordinação contra os castigos, a subalternidade e o racismo presentes na Marinha brasileira, mesmo após a abolição da escravatura, 22 anos depois. Vale à pena conferir a consonância com a Lei 10639, que trata a obrigatoriedade do ensino de História e cultura da Afro-brasileira.

Três princesas aparecem para o menino João. As senhoras Yadetá, Yakalá e Yanasso. Não são de faz de conta e nem de contos de Fada. Trabalham muito. Conversam com plantas, búzios e bichos. Conhecem mazelas e curas. Trazem, no corpo, marcas de herança: cabelos trançados, vestes de tradição, traços de linhagem no braço, nas costas, no colo e colares coloridos como a vida. Assim se comunicam.

As matriarcas construíram um Ilê encantado, uma casa mágica, um barracão na Barroquinha… De lá vieram como sopro para fazer uma revelação ao menino gaúcho, nascido na Encruzilhada do Sul.

Unidas, pedem que preste muita atenção nos corações ao longo da travessia. Corações não são adornos. Mas portadores de afeto. E enigmas devem ser decifrados no mapa do tesouro. São portadores de sentido Axé, no pergaminho encantado. Cada palavra imantada deve ser lida com amor dentro dos corações. E então as Ias iniciam.

“Serás Poeta dos Sete mares, no seio das águas da Guanabara. Imponente. Humano. Deveras humano. Firme. Altivo. Carinhoso. Justo guerreiro. Aguerrido-amoroso. Divisor de águas oceânicas. Bordarás amor: curas. Aprenderás a língua Eubá. Com ela escreverá um diário. Aprenderás a ginga. Serás perseguido pelos dragões como um malta. Muito apenderás com o Besouro, o Cordão de ouro. Serás iniciado para Yangi, o mensageiro dos deuses, senhor de muitas veredas. Descobrirás com o próprio sangue e suor que a Lei de Ouro, a Lei aúrea, não distribui pão, milho e nem terra para o plantio…


João Candido, líder da Revolta da chibata


João Cândido na primeira página do jornal
A escravidão no Brasil foi abolida em 1888, mas, no início do século XX, a Marinha, que era composta de muitos marinheiros negros e ex-escravizados, continuava a submeter seus marujos a castigos severos com 25 chibatadas, caso cometessem alguma falta grave. Era uma prática racista que perdurou até a insubordinação naval liderada por João Candido. As péssimas condições de trabalho e as punições eram motivo de reivindicação de melhorias das condições de trabalho.

Mas em 1910, o marujo Marcelino Rodrigues de Menezes foi preso por ter embarcado com uma garrafa de cachaça. Como castigo exemplar, foi condenado a 250 chibatadas na frente de toda tripulação. Esse episódio foi o estopim para o início da Revolta da Chibata. João Candido liderou mais de dois mil marinheiros e tomou o controle de 3 encouraçados e um cruzador. Os insubordinados apontavam os canhões para a cidade do Rio de Janeiro e uma carta foi enviada ao governo reivindicando mudanças na legislação sobre os castigos.

Oficialmente o governo aboliu as chibatas, mas logo em seguida, o presidente Hermes da Fonseca assinou um decreto que garantiu a expulsão de mais de mil marinheiros. Muitos foram presos ou mortos. João Candido foi preso como líder da revolta, às vésperas do natal. Junto com outros 31 marinheiros, ele foi levado à prisão, cujas celas estavam repletas de cal para a higienização. Nos dias que se seguiram, apenas dois marujos haviam sobrevivido: João Candido e João Avelino Lira.

João Candido, muito debilitado, foi levado para o hospício como um alienado. Após se recuperar, voltou a prisão da Ilha das Cobras. João Candido ficou conhecido como o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, herói que aboliu o uso da chicotada como castigo na Marinha de Guerra. A revolta é um marco na luta pelo fim dos açoites, das desigualdades sociais e contra o racismo na Marinha de Guerra.



Os 12 bilionários que poderiam ter salvado o Brasil sete vezes

Em tempos de julgamento — com cartas marcadas — de Lula, algumas outras notícias importantes acabam passando batido por nós. Afinal, é nesta quarta-feira (24-01-2018) que começará a ser desenhado o resultado das eleições presidenciais deste ano, as primeiras depois que uma presidente eleita foi derrubada sem justificativa legal para tanto. As primeiras depois do golpe parlamentar que varreu Dilma do poder.



Como eu disse, acho que este julgamento está com as cartas marcadas, então me sinto desanimada para escrever a respeito. Amanhã, quem sabe, comento o resultado óbvio.


Mas retomando minha linha de raciocínio da primeira frase deste post, algumas notícias importantes, que não deveriam passar batido, acabaram não recebendo o destaque e repercussão necessários. É o caso desta: “Aumento de bilionários em 2017 poderia acabar com a extrema pobreza por 7 vezes.

São tantos números absurdos, a desigualdade de renda está tão desigual, especialmente no Brasil, que a gente fica meio sem palavras. Recomendo a leitura na íntegra desta matéria da Agência Brasil e também da versão da Folha, mas abaixo destaco meus trechos surrealistas favoritos:

  • De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% ficaram concentrados nas mãos dos que estão na faixa de 1% mais rica, enquanto a metade mais pobre – o equivalente a 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada.
  • Houve um aumento histórico no número de bilionários no ano passado: um a mais a cada dois dias. Esse aumento seria suficiente para acabar sete vezes com a pobreza extrema no planeta.
  • Atualmente há 2.043 bilionários no mundo. A concentração de riqueza também reflete a disparidade de gênero, pois a cada dez bilionários nove são homens.
  • O Brasil ganhou 12 bilionários a mais no período, passando de 31 para 43.
  • O patrimônio dos bilionários brasileiros alcançou R$ 549 bilhões no ano passado, um crescimento de 13% em relação a 2016. Por outro lado, os 50% mais pobres tiveram a sua fatia na renda nacional reduzida de 2,7% para 2%.
  • Um brasileiro que ganha um salário mínimo precisaria trabalhar 19 anos para ganhar o mesmo que recebe em um mês uma pessoa enquadrada entre o 0,1% mais rico.
  • No Brasil, as alíquotas de imposto sobre herança chegam no máximo a 8%, quando no Reino Unido, por exemplo, podem atingir 40%.
  • Os 10% mais pobres do país gastam 32% de sua renda em tributos, a maior parte deles indiretos (sobre bens e serviços), e os 10% mais ricos gastam 21%.
  • Cinco bilionários brasileiros concentram o equivalente à metade da população do país.
  • De novo: “O país ganhou 12 novos bilionários em 2017. Hoje, eles somam 43 ultrarricos. Cinco deles têm riqueza igual à da metade da população brasileira. O país foi apontado por diversos estudos como um dos mais desiguais do mundo.”

Ah sim, quer saber quem são esses bilionários brasileiros? Aí está a lista da Forbes de 2017:

1. Jorge Paulo Lemann – US$ 29,2 bilhões (AB/Inbev)
2. Joseph Safra – US$ 20,5 bilhões (Banco Safra)
3. Marcel Telles – US$ 14,8 bilhões (AB/Inbev)
4. Carlos Alberto Sicupira – US$ 12,5 bilhões (AB/Inbev)
5. Eduardo Saverin – US$ 7,9 bilhões (Facebook)
6. Ermirio Pereira de Moraes – US$ 3,9 bilhões (Votorantim)
7. Maria Helena Moraes Scripilliti – US$ 3,9 bilhões (Votorantim)
8. José Roberto Marinho – US$ 3,8 bilhões (Grupo Globo)
9. Roberto Irineu Marinho – US$ 3,8 bilhões (Grupo Globo)
10. João Roberto Marinho – US$ 3,7 bilhões (Grupo Globo)
11. Abilio Diniz – US$ 3,3 bilhões (BRF/Carrefour)
12. Walter Faria – US$ 3,3 bilhões (Grupo Petrópolis)
13. Jorge Moll Filho – US$ 3,2 bilhões (Rede D’Or)
14. Fernando Roberto Moreira Salles – US$ 3,2 bilhões (Itaú Unibanco)
15. João Moreira Salles – US$ 3,2 bilhões (Itaú Unibanco)
16. Pedro Moreira Salles – US$ 3,2 bilhões (Itaú Unibanco)
17. Walther Moreira Salles – US$ 3,2 bilhões(Itaú Unibanco)
18. Rossana Camargo de Arruda Botelho – US$ 3,1 bilhão (Camargo Corrêa)
19. Renata de Camargo Nascimento – US$ 1,9 bilhão (Camargo Corrêa)
20. Regina de Camargo Pires Oliveira Dias – US$ 3,1 bilhão (Camargo Corrêa)
21. Aloysio de Andrade Faria – US$ 2,4 bilhões bilhão (Banco Alfa)
22. José Luís Cutrale – US$ 2,2 bilhões (Cutrale)
23. Alexandre Grendene Bartelle – US$ 2 bilhões (Grendene)
24. Alfredo Egydio Arruda Villela Filho – US$ 1,9 bilhão (Itaú Unibanco)
25. Júlio Bozano – US$ 1,8 bilhão (Grupo Bozano)
26. Dulce Pugliese de Godoy Bueno – US$ 1,8 bilhão (Amil)
27. André Esteves – US$ 1,8 bilhão (BTG Pactual)
28. Carlos Sanchez – US$ 1,8 bilhão (EMS)
29. Ana Lucia de Mattos Barretto Villela – US$ 1,7 bilhão (Itaú Unibanco)
30. Jayme Garfinkel – US$ 1,5 bilhão (Porto Seguro)
31. Liu Ming Chung – US$ 1,5 bilhão – (Nine Dragons)
32. Ana Maria Marcondes Penido Sant’Anna – US$ 1,5 bilhão (CCR)
33. José Isaac Peres – US$ 1,5 bilhão (Multiplan)
34. João Alves de Queiróz Filho – US$ 1,4 bilhão (Hypermarcas)
35. Rubens Ometto Silveira Mello -US$ 1,4 bilhão (Cosan)
36. Lírio Parisotto – US$ 1,4 bilhão (Videolar-Innova)
37. Lina Maria Aguiar – US$ 1,3 bilhão (Bradesco)
38. Maurizio Billi – US$ 1,3 bilhão (Eurofarma)
39. Nevaldo Rocha – US$ 1,3 bilhão (Riachuelo)
40. Antonio Luiz Seabra – US$ 1,3 bilhão (Natura)
41. Miguel Krigsner – US$ 1,2 bilhão (Grupo O Boticário)
42. Lia Maria Aguiar – US$ 1,1 bilhão (Bradesco)
43. Daisy Iguel – US$ 1,1 bilhão (Grupo Ultra)

Durante o governo Lula, este que está para ser julgado em segunda instância, conseguimos sair do Mapa da Fome, tiramos muitas crianças das ruas com o Bolsa Família e reduzimos a pobreza no Brasil. Mas nem toda a política social promovida nos primeiros anos do governo federal petista conseguiram acabar com essa desigualdade de renda histórica, só piorada nos últimos três anos (até porque os banqueiros e ricaços também foram muito beneficiados no período). E agora é que esse problema não será resolvido tão cedo.


Ah, sim: e estamos caminhando para retomar o posto no Mapa da Fome…


18 meninas são estupradas por dia no Brasil

A cada dia, pelo menos 18 meninas são estupradas no Brasil. Principal causa da gravidez precoce, o estupro está relacionado ao início tardio do pré-natal, parto prematuro e bebês com baixo peso ao nascer. Na maioria dos casos, a violência ocorre dentro de casa




por Cida de Oliveira, RBA
Via Pragmatismo Politico

A subnotificação dos casos de estupro de meninas que nem completaram 12 anos mascara a real dimensão da vulnerabilidade dessas crianças e adolescentes no Brasil. No entanto, dados da Vigilância Contínua de Violência Doméstica, Sexual e outras Violências Interpessoais e Auto-provocadas e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Viva/Sinan), do Ministério da Saúde, fazem uma projeção no mínimo preocupante. No ano de 2015 foram registrados 162.575 casos de violência contra a mulher. Desse total, 17.871 (10,99%) são estupros, dos quais 6.706 (37,52%) em meninas de 0 a 12 anos. É como se 558 dessas crianças fossem estupradas todo mês, 18 por dia.

A análise comparada dos dados Sinan com o Sistema de Nascidos Vivos (Sinasc) de mães até 13 anos, no período de 2011 a 2015, mostra notificação de 32.809 estupros que culminaram em gravidez. Ou seja, uma estimativa de 15 meninas dessa mesma faixa etária sendo violentadas todos os dias. Em 45% dos casos, as ocorrências são repetidas, e são comuns os casos praticados dentro da própria casa.


As mesmas fontes do Ministério da Saúde mostram que, no período, das meninas de 10 a 14 anos que engravidaram e se tornaram mães, houve notificação de estupro em 3.266 casos.

Não bastasse a violência desse tipo de agressão, que causa danos físicos e psicológicos nas vítimas que em muitos casos mal chegaram à adolescência, o estupro de criança e adolescente interfere na gestação, traz complicações no parto e no nascimento. Uma interferência e tanto na saúde materno-infantil.

Desse total de gravidez precoce, 21,8% terminam em parto prematuro, em grande parte do tipo cesariana, com todos os riscos associados. Em 53,4% dos casos, o pré-natal começou tardiamente e, em 17,4%, os bebês nasceram com baixo peso. Clique aqui para acessar dados detalhados do Ministério da Saúde sobre o tema.


Desigualdade

O racismo e a desigualdade social resultante dos 300 anos de escravidão aparecem com vigor nos dados oficiais. O percentual de meninas até 13 anos que tiveram filhos foi maior entre negras (67,5%).

Precisamos falar de saúde da população negra em uma perspectiva que vai além dos consultórios. Precisamos de ações sociais que dialoguem a favor da luta contra o racismo. É preciso pensar essas situações como problema de saúde pública”, diz a diretora de Políticas Sociais do Sindicato dos Psicólogos de Estado de São Paulo (Sinpsi), a psicóloga e militante do movimento negro Cinthia Cristina da Rosa Vilas Boas.

Com atuação em políticas do Sistema Único de Assistência Social (Suas), em Campinas, a psicóloga afirma que ainda prevalece a realidade descrita no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2015, segundo a qual foram registrados o equivalente a um estupro a cada 11 minutos – 70% das vítimas são crianças e adolescentes.

Quem mais comete o crime são homens próximos às vítimas, segundo dados do Ipea Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2011. Esses crimes continuam sendo praticados pelos homens. Porém, agora não são somente os próximos. Os casos de estupro acontecem em vários locais, dentro e fora das residências. Essas especificidades criam características que apontam para a luta em favor do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, afirma Cinthia.


Segundo ela, nem todos os casos são notificados. E nem todas as delegacias da mulher funcionam. “E quando funcionam, são conduzidas por homens que reproduzem a mesma lógica machista, perversa e violenta com que acontecem os estupros“, afirma. “Acredito que as políticas sociais têm um importante papel nessas estatísticas, porém, o Estado não se responsabiliza em fazê-las acontecer; muitas vezes se isenta e não permite atuação do controle social e seu efetivo funcionamento“.


Educação

Boa parte das violências sexuais ocorrem nos ambientes familiares e são praticadas nas residências das vítimas e por pessoas que deveriam protegê-las, como pais, padrastos, padrinhos, entre outros. Em razão da violência ocorrer em ambiente doméstico e da impunidade é que as situações se tornam repetitivas e reiteradas. Faltam delegacias especializadas de proteção de crianças e adolescentes, inclusive São Paulo é único estado que não tem nenhuma“, ressalta o advogado e coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe), Ariel de Castro Alves.

Segundo ele, são necessários centros de referência especializados em apoio às vítimas, com assistência social e psicológica. “É necessário também educação sexual nas escolas visando à prevenção, além de reforçar o programa saúde da família“, diz.

Há ainda a necessidade de centros médicos de referência para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, inclusive para os casos de aborto legal. Muitas vezes as meninas menores de 14 anos são casadas informalmente, ou namoram adultos e têm filhos.

Isso demonstra a necessidade de educação, prevenção e atenção social. Não adianta tratar esses casos só no âmbito policial, criminal e judicial. Aqueles que se revoltaram com a liberdade artística nos museus, não se revoltam com esses números estarrecedores.”

Crime dos mais perversos

Estupro é o ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (art. 213 da Lei nº 12.015/2009). É considerado um dos crimes mais perversos, já que interfere na saúde física, psíquica e, principalmente, sexual e reprodutiva das vítimas. A ocorrência de estupro na infância ou adolescência pode estar associada à maior vulnerabilidade, à depressão, ao suicídio, à gravidez, ao menor uso de métodos anticoncepcionais, maior risco de repetição da agressão e ocorrência de infecções sexualmente transmissíveis. “Logo, o estupro possui determinantes e consequências específicas que requerem a formulação de políticas, envolvendo as instituições de Segurança Pública, Saúde, Educação e Assistência Social“, diz a psicóloga Cinthia Cristina da Rosa Vilas Boas.

Preparem-se para a prisão do Lula e de muitos outros

O julgamento do TRF 4, no ultimo dia 24/01/18, foi um sinal límpido das regras do jogo. Vale tudo pra dar sequência ao golpe. Que Lula seria condenado já era algo praticamente certo e divulgado, ao menos pra este blogueiro. A forma, porém, não poderia ser mais escandalosa. Os desembargadores aumentaram a pena pra livrar Moro de qualquer acusação de ter exorbitado no processo. Ainda foram unânimes não só na decisão como na pena. Pra impedir recursos. E pra não deixar dúvida, disseram que a condenação tem que ser cumprida pelo juiz de primeira instância quando publicada.

Lula vai ser preso em breve. Esse blogueiro arrisca dizer que antes do Carnaval.

Por muito tempo, boa parte das lideranças petistas ficou na esparrela de que não ia ter impeachment, de que eles não teriam coragem de prender Lula, que não ia dar tempo de impedir sua candidatura e assim por diante. Pois bem, isso é passado.





Lula vai ser preso e pode até vir a ser solto depois por uma decisão do STF, mas pra isso o país terá que virar de ponta cabeça. Antes, porém, muitas lideranças provavelmente serão presas. É aí que mora o perigo. A prisão de Lula é a porta pra o endurecimento contra a esquerda e os movimentos sociais. Com o “chefe da quadrilha” na jaula é hora de pegar o resto da gangue.

As lideranças sociais serão os primeiros alvos. Não serão parlamentares ou advogados e jornalistas progressistas, esses ficarão pra um momento seguinte e se necessário for. Primeiro a galera que coloca gente na rua e pode inflamar o país.

O que fazer numa situação dessas? Difícil saber. O que se deve saber é que não dá mais pra pensar a conjuntura fazendo análises equivocadas, otimistas, iludidas. Ontem, enquanto, Lula era condenado, o processo contra Serra era arquivado.

Não existe jogo a ser jogado nas barras dos tribunais. A radicalização destrambelhada também não é o caminho. Mas o pior é ficar se iludindo. Lula será preso e a esquerda precisa pensar como agir a partir deste dado da realidade.


Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas

Mulheres respondem a funk com apologia ao estupro: "É crime"

Uma das faixas mais ouvidas no Brasil, música de MC Diguinho causa polêmica, reação feminina e debate sobre a cultura do estupro


por Tory Oliveira, Via Carta Capital


"Só surubinha de leve com essas filhas da puta, taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua", canta MC Diguinho no funk "Surubinha de Leve", uma das faixas mais ouvidas no Brasil nas plataformas de streaming. Um clipe da música, lançada há quatro meses, está previsto para ser divulgado na quarta-feira 17.

A polêmica em torno da temática da canção, interpretada como uma apologia ao crime de estupro (além de machista), gerou críticas, paródias e denúncias de usuários ao longo do dia. Na letra em questão de Diguinho, fala-se claramente sobre uma relação não-consensual com uma mulher bêbada, com o agravante do "depois abandona na rua". 


"Sua música ajuda para que as raízes da cultura do estupro se estendam. Sua música aumenta a misoginia. Sua música aumenta os dados de feminicídio. Sua música machuca um ser humano. Sua música gera um trauma. Sua música gera a próxima desculpa. Sua música tira mais uma. Sua música é baixa ao ponto de me tornar um objeto despejado na rua", reagiu Yasmin Formiga.


O que era um desabafo pessoal tornou-se uma das "respostas" mais reproduzidas pelos críticos de "Surubinha", com mais de 127 mil compartilhamentos.






"Essa música é um total desrespeito contra as mulheres! E essa é a nossa resposta pra ela", fez coro à crítica a dupla Carol e Vitória, responsáveis por publicar no Youtube uma paródia com letras feministas para a música:


"Abusar de mulher é crime, estupro é violência, tira as mãos de cima dela e coloca na consciência. Só um recadinho de leve para quem fala o que quer: não calo a minha voz pra defender uma mulher".



Por meio de uma nota, o Spotify anunciou a retirada a música da plataforma pela distribuidora. Já a produtora responsável pela carreira de Diguinho, informou que dará uma resposta "nas redes".

A viralização de "Surubinha de Leve" trouxe à tona, novamente, as questões da objetificação da mulher e da normalização da cultura do estupro que permeia a sociedade brasileira. Não é, por exemplo, a primeira vez que a violência contra a mulher é utilizada levianamente em uma letra de funk. Em 2016, na esteira do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, rapidamente emergiram músicas ao estilo "proibidão" que insultavam e descreditavam a vítima. Já "Covardia", de MC Livinho, tem entre os seus versos "Vou abusar bem dessa mina, toma, toma pica tranquilinha".

Artigo - POLICIAL NÃO É HERÓI

Quem a polícia protege de fato? 


A delegada da Polícia Civil reflete sobre a guerra não declarada que mata jovens negros, mas que tem também policiais entre as suas vítimas. A que interesses serve o combate violento aos “bandidos”?



Texto de BIanca Braile - Via Piseagrama

A polícia vai, a polícia vem, pinturas de Dora Longo Bahia


O Brasil tem uma experiência democrática muito curta: são mais de 400 anos de história de rupturas e revoltas, governos autoritários, violência e impunidade. Após o período de redemocratização do país e a promulgação da Constituição Federal de 1988, as instituições brasileiras passaram a buscar, aos trancos, barrancos e tropeços, a superação desse arraigado autoritarismo. É difícil encontrar tarefa mais árdua, já que nossa estrutura social foi forjada no bojo de regimes violentos, fortemente hierarquizados e excludentes. O desafio de mudança de paradigma nas instituições responsáveis pela promoção de direitos e de cidadania ¬¬– dentre elas, a polícia – segue assombrando todo o sistema político e social.


Ainda causa muito espanto (inclusive no meio policial) associar a polícia à promoção de direitos humanos. Durante a ditadura militar, as instituições policiais e os direitos humanos se instalaram em polos opostos: àquelas foi reservada a atribuição de defender o status quo e a manutenção do regime, e para o efetivo cumprimento dessa missão foram profundamente manipuladas e militarizadas.


A ideia de que, no seio da coletividade, havia a figura de um “inimigo” a ser combatido e que as polícias, ao lado das Forças Armadas, seriam responsáveis pelo expurgo desse inimigo, incutiu nas corporações o entendimento de que o corpo social era uma massa a ser controlada a qualquer custo, o que contribuiu para que houvesse uma verdadeira cisão entre polícia e sociedade.


Aproximar as instituições policiais da sociedade é provavelmente o primeiro e maior desafio rumo à construção de uma efetiva cultura democrática. Para isso, é necessário que o policial conheça as suas atribuições, a quem deve servir e quais as necessidades daqueles para quem seus serviços são prestados. O que vemos hoje no entanto é que muitos profissionais não sabem conceituar o que é a polícia, ou sequer elencar suas funções no contexto de um Estado Democrático de Direito.


De acordo com o décimo anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2016, no ano de 2015 houve 3.320 mortes durante operações policiais no país. Entre 2009 e 2015, temos um total de 17.688 vítimas de intervenções policiais, uma média de mais de 2.500 mortes por ano. São números aterrorizantes, que nos arremessam a uma incômoda liderança: somos o país com o maior índice de pessoas mortas durante a atuação das polícias.


Por outro lado, ainda segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tivemos 358 policiais vítimas de homicídio no ano de 2015 (sendo 91 em serviço e 267 fora de serviço). De 2009 a 2015 foram, no total, 2.572 policiais mortos. São números que não guardam semelhança com nenhum outro lugar no mundo. A quantidade de policiais que morreram no Brasil somente no ano de 2015 é equivalente à quantidade de policiais mortos na Inglaterra em 98 anos. Mesmo comparando com países que também possuem polícias violentas, seguimos na dianteira: em 2015 morreram 41 policiais em serviço nos Estados Unidos. Somos o país em que a polícia mais mata e mais morre no planeta. E mais: a letalidade e a vitimização policiais são maiores hoje, em plena democracia, do que durante a última ditadura militar – e os números têm aumentado a cada ano.






O que mais causa perplexidade, ao constatarmos por aqui uma quantidade de mortes maior do que em países que se encontram em guerra declarada, é o descaso dos poderes em tratar do assunto com a seriedade que se exige. É pateticamente recorrente, entre os governantes, a promessa de “mais viaturas, mais armas e mais policiais nas ruas” durante períodos eleitorais ou sempre que ocorrem crimes violentos de grande repercussão na mídia. Os meios de comunicação de massa, por sua vez, tratam das questões referentes à criminalidade de forma rasa e sensacionalista, com a utilização de linguagem e imagens típicas do espetáculo, o que prejudica a compreensão da natureza e da escala do problema.


A sociedade, acuada diante do crescimento cada vez maior da violência, acaba alimentando uma bola de neve: as pessoas tendem a acreditar que não há solução para a questão da segurança e seu entendimento é de que o policial não está agindo à margem da lei ao matar “bandidos”. Pelo contrário: o policial estaria apenas fazendo “o seu trabalho”, que seria “tirar bandidos de circulação”. Em outras palavras, há uma naturalização social da violação de direitos, uma vez que a atuação policial pode acontecer desconsiderando-se parâmetros legais. A famigerada frase “bandido bom é bandido morto” ecoa pelo país e recebe a aprovação de 57% da população.


No senso comum, aliás, o policial costuma receber o status de “herói” ou “guerreiro”, uma vez que abre mão de estar com sua família e entes queridos para se arriscar em prol da sociedade. A questão no entanto é: será que o policial realmente protege a sociedade?


Averdade é que as forças de segurança pública, que têm por dever a defesa dos cidadãos, não os defendem de fato: na guerra não declarada em que nos encontramos, é importante atentar para o fato de que tanto as vítimas policiais quanto as vítimas da população, regra geral, têm a mesma origem. No caso dos policiais, as vítimas são praças (policiais de baixa patente: soldados, cabos, sargentos e subtenentes), investigadores e agentes de polícia. São esses policiais, situados na base da estrutura hierarquizada das suas corporações, que geralmente estão nas ruas e entram em confronto com a população.


Por sua vez, as vítimas dos confrontos com aqueles policiais são, geralmente, jovens negros e residentes em periferias. Somos o país com o maior número de homicídios no mundo. Das 58.467 pessoas mortas de forma violenta e intencional no Brasil no ano de 2015 (entre as quais 3.678 são policiais ou indivíduos mortos em decorrência de intervenções policiais), 57% têm entre 15 e 24 anos e 73% são negras ou pardas. Justamente as pessoas que, por sua condição de vulnerabilidade, deveriam receber proteção especial do Estado.


Dessa forma, é possível afirmar que está sendo travada uma guerra de pobres contra pobres, sem vencedores, sem prognóstico de desfecho e com mortes de ambos os lados. O Estado brasileiro fomenta os enfrentamentos que resultam em ações letais, em vez de buscar soluções para a sua redução – o que, diga-se de passagem, já vem sendo feito em diversos países.


A situação das forças de repressão, imersas nessa lógica de guerra, não poderia ser mais aflitiva: se os policiais deixam de agir, são responsabilizados e julgados por suas corporações e pela Justiça, o que também ocorre se atuam e provocam alguma lesão ou morte (se não forem eles as próprias vítimas fatais).


É claro que a sociedade, que costuma empurrar o policial para a prática da violência, não consegue lidar bem com ela quando percebe sua proximidade. A lógica é mais ou menos a seguinte: podemos tolerar as mortes daquela parcela invisível da população (os jovens negros e moradores das periferias), mas não aceitaremos o assassinato de pessoas próximas a nós. Nessa guerra seletiva, a morte de pessoas brancas, de classe média ou alta, durante uma operação policial, gera muito mais comoção, revolta e cobrança por responsabilização do que o assassinato de adolescentes e jovens negros e favelados.


Ainda sobre a percepção da sociedade acerca da violência policial, David Bailey, professor de Justiça Criminal da Universidade de Nova Iorque, argumenta que o abuso de força da polícia compromete a sua efetividade, uma vez que diminui a confiança da sociedade em relação ao trabalho policial. E quando essa relação de confiança fica abalada, as pessoas não se sentem dispostas a ajudar nos trabalhos investigativos, a denunciar ou a prestar depoimento.


A falaciosa solução costumeiramente anunciada pelos poderes públicos (aquisição de mais equipamentos e aumento de policiais nas ruas) não é e jamais será suficiente para conter e reduzir a criminalidade, como já ficou demonstrado pelos números anualmente apresentados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para isso, é preciso alçar o tema da letalidade e da vitimização policiais como prioridade na agenda do Estado. É preciso convocar os atores sociais para um amplo e profundo debate acerca do tema, conscientizando-os da importância da sua aproximação das polícias. É preciso, sobretudo, garantir direitos sociais e desenvolver políticas públicas de prevenção, treinamento e inteligência policial.


Lamentavelmente, persiste no senso comum (e, sobretudo, dentro das polícias) a ideia de que “direitos humanos só servem para proteger bandidos”. Mas essa narrativa não se sustenta. Em primeiro lugar, não é verdade que “somente os direitos humanos dos bandidos são respeitados”. Até porque não existe uma lista de direitos exclusiva para criminosos e outra para aqueles que não praticam crimes. Direitos humanos são universais, e recebem o nome de “humanos” justamente porque são assegurados a toda e qualquer pessoa, indistintamente. Assim, a simples condição humana já torna uma pessoa sujeito de direitos.


Tomando por base que “bandido” seria aquele indivíduo que pratica ou praticou algum crime tipificado na legislação penal, não é preciso fazer um grande esforço para perceber que os direitos desse indivíduo não são respeitados no Brasil. O acesso à justiça para aqueles que não possuem condições de pagar um advogado é precário; a assistência jurídica gratuita, embora seja um direito fundamental, não é de fato assegurada porque as Defensorias Públicas não têm estrutura suficiente para atender a todos; por essa razão, outros direitos inscritos na Constituição e que são inerentes à garantia do devido processo legal, tais como o contraditório e a ampla defesa, acabam sendo prejudicados.




Após a condenação a situação não é melhor: basta acompanhar as notícias para saber que a situação carcerária no país é medieval. Os presos são amontoados em celas superlotadas, sem condições mínimas de higiene e segurança e não há, efetivamente, prestação de assistência material, médica, educacional e social aos presos, o que torna a Lei de Execuções Penais (lei 7.2010/84) letra morta. Nesse cenário de violação permanente de direitos, o senso comum não consegue compreender que não apenas o preso, mas toda a sociedade sai perdendo: torna-se praticamente impossível a ressocialização do encarcerado e, com isso, a grande maioria reincide nas práticas criminosas.


A retórica de que direitos humanos seriam apenas para proteger “bandidos” evidentemente não procede. Tampouco procede a ideia de que “direitos humanos são para humanos direitos”, já que toda a sociedade seria protegida por uma prática de direitos universal, ampla e reintegradora do tecido social.


É curioso que grande parte dos profissionais de segurança pública, além de não conseguirem se enxergar como genuínos garantidores de direitos, também encontrem dificuldades em se perceberem como sujeitos de direitos. Muitas vezes expostos a exaustivas e estressantes jornadas de trabalho, sem direito a folgas, com salários baixos, vítimas de abusos de seus superiores hierárquicos e sem o direito de reclamar ou expressar sua opinião, os policiais raramente encontram espaço ou apoio para fazer valer seus direitos.


A cultura da violência, aliás, já nasce dentro das corporações. Tão logo o indivíduo é aprovado no concurso público e ingressa nas academias de polícia, já passa a sofrer uma série de abusos. De acordo com a pesquisa Opinião dos policiais brasileiros sobre reformas e modernização da segurança pública, realizada em 2014 pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública, os cursos de formação das Polícias Militares têm como objetivo primordial incutir a cultura militar nos praças e submetê-los a rígidos regulamentos disciplinares. Dos policiais entrevistados – em sua maioria praças – 38,8% afirmaram que já foram vítimas de tortura física ou psicológica durante o treinamento ou fora dele e 64,4% disseram ter sido humilhados ou desrespeitados por superiores hierárquicos.


Para complicar ainda mais a situação, a estrutura fortemente hierarquizada e militarizada das polícias (que é a mesma do período ditatorial) dá pouco espaço para que policiais possam denunciar abusos e violações de direitos. Há, inclusive, regimentos internos das Polícias Militares de vários estados que proíbem expressamente ao policial qualquer tipo de manifestação acerca da própria profissão – contrariando, portanto, o preceito constitucional inscrito no artigo 5º, inciso IV, que consagra o direito à livre manifestação de pensamento.


Essa violação de direitos institucionalizada dentro dos cursos de formação acaba se refletindo na maneira como o policial vai atuar, na sua interação cotidiana com a população. O policial tende a ser autoritário com o cidadão nas ruas e a não respeitar seus direitos, o que é coerente com a forma como é tratado dentro da própria corporação. Em contrapartida, ao ver o policial agindo de forma violenta, a sociedade se sente legitimada a agir da mesma forma, naturalizando abusos e incrementando ainda mais a ciranda da violência.


Policiais não são heróis. Heróis devem estar sempre dispostos a encarar riscos, desafios e situações de intensidade a qualquer hora e lugar, sem receber qualquer tipo de pagamento por isso e, muitas vezes, abrindo mão dos próprios valores e desejos. Também não são guerreiros, já que o país não se encontra em estado de guerra declarada, e muito menos passando por um período de exceção democrática.


É urgente que o policial passe a se perceber como um braço do Estado e, justamente por essa razão, como um garantidor de direitos. Por outro lado, ele também precisa se reconhecer como um sujeito de direitos, haja vista que é um ser humano, cidadão, trabalhador como qualquer outro e, assim, equipara-se a todos os membros da coletividade em termos de direitos e deveres. O educador Ricardo Balestreri, atual secretário de Segurança Pública do estado de Goiás, salienta que o policial é um cidadão, mas que essa cidadania é qualificada. Isso porque ele atua em nome do Estado, prestando um serviço à sociedade, ao mesmo tempo que também é destinatário desse serviço.


Durante o período de redemocratização do país, alguns estados da Federação deram início à implementação de mudanças nas suas estratégias de policiamento, tomando por base a filosofia de Polícia Comunitária. Essa filosofia, que ganhou força na década de 1970 em alguns países da América do Norte e da Europa Ocidental, visa a um novo modelo de polícia, fundado numa parceria entre os órgãos de segurança e os membros da coletividade.


Tendo em mira o modelo de policiamento comunitário, no ano de 1985 o Governo do Estado de São Paulo deu início à criação de conselhos comunitários de segurança, entidades de direito privado que até hoje se reúnem regularmente e contam com a participação de representantes das Polícias Civil e Militar e membros da sociedade. Nessas reuniões são discutidas questões que impactam nos índices de criminalidade em certas regiões e, desta forma, a própria comunidade pode se articular em busca da prevenção e da solução desses problemas, bem como propor aos policiais as definições de prioridade da segurança pública da região. Hoje temos conselhos comunitários de segurança muito atuantes em diversos municípios, espalhados por quase todos os estados da Federação.




Ainda em busca dessa aproximação com a comunidade, a Polícia Militar de Minas Gerais vem implementando uma atuação setorizada, por meio da instalação de bases comunitárias móveis em pontos específicos. Também é possível mencionar o projeto Rede de Vizinhos Protegidos, uma parceria entre moradores de determinada região e a companhia da PM que atua na área; nessa parceria, cabe ao policial, durante visitas de rotina, orientar, coordenar e integrar grupos de vizinhos, de modo que possam se proteger mutuamente e, assim, coibir práticas criminosas nas imediações.


Na Polícia Civil de Minas Gerais, a criação de Delegacias Especializadas e Núcleos de Atendimento para vítimas em situação de vulnerabilidade social – mulheres, idosos, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência e LGBTI – constituiu um importante passo rumo à concessão de efetiva cidadania ampla.


Também nessa linha, a partir da década de 1990 tivemos a criação e o fortalecimento das Ouvidorias de Polícia, órgãos responsáveis por receber, encaminhar e acompanhar denúncias e reclamações da população em relação às atividades policiais. Como não estão subordinadas à estrutura das polícias ou das Secretarias Estaduais de Segurança Pública, possuem maior liberdade para agir, acompanhar e cobrar celeridade e rigor nas investigações feitas pelas Corregedorias de Polícia, razão pela qual se tornaram um mecanismo de controle da sociedade sobre as ações policiais.


Também vale ressaltar que, em consonância com o artigo 144 da Constituição Federal, cujo “caput” estabelece que a segurança pública é “dever e responsabilidade de todos”, diversas prefeituras tomaram a iniciativa de implementação de planos municipais de prevenção à violência, desenvolvidos de acordo com as especificidades locais. Com efeito, problemas distintos demandam soluções distintas, e nem sempre as questões que impactam a vida dos membros de uma determinada comunidade serão as mesmas percebidas em outras áreas.


Embora se deva reconhecer o mérito desses esforços, é preciso dizer que eles estão longe de ser suficientes para a criação e efetivação de uma polícia cidadã, comprometida com a proteção da sociedade e com a promoção de direitos humanos. Para isto, é indispensável que ocorra uma mudança de cultura nas corporações. Conforme mencionado, o modelo de polícia hoje vigente (fortemente hierarquizado e militarizado) foi forjado no período ditatorial, período em que as corporações se apresentaram mais como exércitos estaduais garantidores dos interesses do Estado do que da sociedade. Em plena democracia, é imprescindível o rompimento com esse legado.


Quando se fala em desmilitarização da polícia, ainda predomina entre o grande público muita desinformação. É comum ouvir que aqueles que a defendem desejam “o desarmamento” ou “o fim da polícia”, o que não é sempre verdade. Cabe começar explicando qual é o significado de uma polícia militarizada. De acordo com o artigo 144, §6º da Constituição Federal de 1988, as Polícias Militares e os Corpos de Bombeiros são “forças auxiliares e reserva do Exército”, e é exatamente nisto que reside a militarização das polícias: a obrigatoriedade de copiar o formato organizacional do Exército, de quem são forças auxiliares e reserva.


Essa estruturação da Polícia Militar é um resquício da ditadura que, por meio do decreto-lei 667, de 1969, criou essa vinculação da Polícia Militar às forças armadas, visando a colocar a inteligência do governo à disposição de modo a encontrar (e aniquilar) os “inimigos” (que, naquela época, eram os “comunistas”, bem como todos aqueles que se opunham ao regime militar). Os legisladores constituintes nada mais fizeram do que reproduzir o conteúdo daquele decreto-lei no artigo 144, §6º da Constituição.


Acontece que reproduzir, nas Polícias Militares, a mesma formação organizacional do Exército, não faz mais nenhum sentido. Trata-se de instituições com finalidades distintas – e, logo, demandam modelos de organização distintos. A Constituição Federal, em seu artigo 142, estabelece que as forças armadas “destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Por outras palavras, cabe às forças armadas a proteção da soberania nacional.


Já no artigo 144, §5º da Constituição, consta que “às Polícias Militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública”, ou seja, a função de fiscalizar comportamentos e atividades, com o intuito de regular ou manter a ordem pública. Cumpre ao policial muito mais a capacidade de mediar situações complexas do que a de obedecer com velocidade a uma cadeia de ordens hierárquicas.




A desmilitarização significa a retirada do caráter militar das polícias, de forma que estas possam atender melhor aos seus objetivos institucionais. Evidentemente, apesar da desmilitarização ser um passo fundamental, ela é apenas o início da caminhada em busca da polícia que queremos. É importante registrar que o militarismo vai muito além das patentes, dos uniformes e da sujeição a preceitos rígidos de hierarquia e disciplina, já que seus valores, concepções e métodos estão incrustados nas culturas de ambas as polícias – Militar e Civil. A lógica da guerra, a busca por inimigos e o emprego da violência como forma de resolução de conflitos são percebidos não apenas nas PMs, mas também nas Polícias Civis.


Democracia, como se sabe, pressupõe a participação popular na tomada das decisões políticas fundamentais. E, sendo a polícia um órgão responsável pela promoção de direitos, é imprescindível que o seu trabalho seja exercido de acordo com os parâmetros legais, com transparência e participação da sociedade – que, afinal de contas, é a destinatária dos serviços prestados pelas forças de segurança pública.


O envolvimento da sociedade no trabalho policial é essencial para a conscientização da necessidade de mudança nos rumos das políticas públicas de enfrentamento à violência e à criminalidade: pelos dados estatísticos aqui apresentados, fica evidente que o abuso da força, além de ilegal e ilegítimo, não é o caminho adequado para a promoção de segurança. Se fosse, não teríamos, ano após ano, o aumento nos índices de mortes e crimes violentos.


A aproximação entre os órgãos de segurança e a coletividade mostram bons resultados nos países que a adotam. Certamente não seria diferente no Brasil. Uma sociedade consciente da importância e da imprescindibilidade do trabalho desempenhado pelas polícias certamente estará apta a exigir dos poderes públicos que cumpram a sua parte na resolução do problema, através da implementação de direitos sociais e da valorização da carreira policial, com ênfase na prevenção, no treinamento contínuo e no trabalho de inteligência. Em vez de buscar inimigos, precisamos buscar parcerias.



Como citar este artigo


BRAILE, Bianca. Policial não é herói. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 11, página 74 - 83, 2017.


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Bianca Braile

Delegada de Polícia em Minas Gerais, especialista em Direito Público pela Universidade Federal de Juiz de Fora.


Dora Longo Bahia


Artista visual e doutora em Poéticas Visuais pela USP, onde também é professora. Participou de exposições no Brasil e no exterior, dentre elas a 28ª Bienal de São Paulo.


Historiador cria aplicativo que ensina idioma africano a crianças

Chamado de Alfabantu, a ferramenta traz o idioma angolano kimbundu e está disponível para download gratuito para Android

Aplicativo Alfabantu – Foto: Reprodução




A história e a cultura afro-brasileira devem constar no currículo oficial da rede de ensino no Brasil, como prevê a Lei 9.394/1996. No entanto, a disponibilidade de material sobre o assunto e a aplicação da lei ainda são deficitárias em muitas escolas. Foi pensando nisso que o historiador Edson Pereira e a socióloga Odara Dèlé decidiram criar um aplicativo de celular, o Alfabantu, destinado ao ensino da língua falada pelo povo kimbundu, de Angola.

A ideia nasceu quando Pereira ainda cursava História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Lá ele teve seu primeiro contato com o kimbundu, através de um curso ministrado pelo professor Nii.

Hoje, Odara é professora de Sociologia do ensino médio na rede estadual e Pereira, professor de História do ensino fundamental na rede municipal. Com a vivência escolar, foram percebendo que os professores tinham dificuldade em trabalhar a história da África com as crianças. “Não existe muita vontade dos professores e os que têm vontade não sabem como fazer, falta material didático”, conta Odara.

Com um interesse antigo no resgate histórico da cultura africana, o casal encontrou no idioma uma potencial forma de aproximar a África das crianças brasileiras que, muitas vezes, passam a infância sem conhecer a história dos seus povos originários.


Odara e Pereira, socióloga e historiador, criadores do aplicativo Alfabantu – Foto: Arquivo Pessoal



Inspirados pelo Asa – aplicativo criado por um nigeriano que percebeu que faltava às novas gerações um conhecimento mais profundo sobre seus antepassados, começaram a planejar o Alfabantu. O aplicativo Asa ensina a língua iorubá e traz conteúdos sobre a história e cultura da Nigéria e da África. Já o criado pelo casal se dedica, por enquanto, exclusivamente, ao ensinamento do idioma angolano.

Lançado em 21 de novembro, o aplicativo é voltado ao público infantil e está disponível apenas para celulares com sistema Android. Durante a pesquisa preliminar, Odara e Pereira encontraram dados significativos a respeito do uso do celular pelos brasileiros: crianças entre 5 e 14 anos costumam passar 80% do seu tempo livre com os aparelhos em mãos.

“A gente está muito ligado ao celular, mas o importante é pensar quais conteúdos são vistos. Podemos potencializar esse uso de forma positiva. As crianças podem permanecer no celular, mas acessando conteúdo de qualidade”, avalia Odara.

A ideia do Alfabantu é proporcionar um aprendizado lúdico e interativo, algo que atraia o público infantil. O aplicativo é dividido em duas partes. Na primeira, há o contato inicial com a língua: são apresentadas frases do cotidiano, partes do corpo humano, números, animais e diversas outras palavras. Na segunda parte, a criança testa seu conhecimento através de um quiz. “A criança aprende e, ao mesmo tempo, se diverte”, segundo Odara.

Até a primeira semana de dezembro, mais de 600 downloads do Alfabantu já tinham sido registrados. Além de brasileiros, moradores de Angola, Moçambique, Reino Unido, Polônia e Portugal também baixaram o aplicativo.

O casal conta que pretende desenvolver versões mais completas do aplicativo. Além da adição de conteúdos, como cultura africana, querem ampliar o público-alvo, criando versões do Alfabantu para adultos. Contam, ainda, que pretendem criar materiais didáticos do aplicativo que possibilite sua expansão. O objetivo é trazer a África para perto de cada vez mais brasileiros.


O aplicativo está disponível para download neste link.

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O aplicativo está disponível para download neste link.



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