Por que a sexualidade da mulher é tratada como questão de saúde?

Tabus e mitos colocam o prazer feminino constantemente no consultório médico. Entre exames desnecessários e falta de informação, uma nova ginecologia vem ganhando espaço


A rotina é conhecida de muitas mulheres: após a perda da virgindade, inicia-se o ritual anual da visita à ginecologista. Pouca conversa e exames invasivos, muitas vezes marcados por dor, passam a ser considerados naturais, uma parte essencial  de garantir não só a saúde, mas também o bem estar sexual. No entanto, um novo movimento de ginecologia tem questionado esse padrão que coloca o espéculo e a maca como parte essencial da sexualidade da mulher.
Antes de conhecer essa nova ginecologia, é preciso porém, olhar para trás para entender porque a sexualidade é tratada da forma como a conhecemos. É preciso olhar bem para trás, para o que seria o “início” da humanidade. Tanto na Bíblia, com a figura de Eva, como na Mitologia, com a figura de Afrodite, o corpo da mulher e sua sexualidade, respectivamente, teriam sido criadas a partir do pedaço do corpo de um homem: a primeira veio da costela de um; a segunda, do pênis castrado de um deus. A ideia de que o corpo da mulher seria uma extensão do masculino se perpetuou por muito tempo em várias áreas do saber: os ovários eram conhecidos como “testículos femininos” até o século VXII.
Desde a Grécia Antiga até o final do século XIX, por exemplo, acreditava-se que a histeria, um tipo de neurose, era uma “doença” exclusiva das mulheres. A própria origem da palavra demonstra uma falta de conhecimento, por séculos, do corpo da mulher: histeria vem do grego, “hystéra”, que significa útero.
O psicólogo francês Pierre Janet (1859-1947) e, posteriormente, Sigmund Freud (1856-1939), foram os primeiros profissionais a associar a histeria a causas psicológicas e não físicas, provando que a neurose pode acometer qualquer pessoa independente do sexo. Mas até o século XX, a histeria das mulheres era tratada com cirurgias – em algumas havia a retirada do útero –, remédios e, nos casos mais leves, com uma massagem clitoriana feita pelos médicos, que levavam as “enfermas” a um estado chamado de “paroxismo histérico”. O orgasmo feminino ainda era desconhecido e a tal massagem nas histéricas nada mais era do que a masturbação feminina, ato que pode e deve ser feito pelas próprias mulheres.
Do tratamento equivocado da histeria até hoje, muitos outros mitos sobre a sexualidade e o corpo da mulher continuam sendo disseminados. E neste contexto de tabus e desinformação, o prazer feminino se torna um assunto problemático que, com frequência, vai parar apenas no consultório médico – e raramente em outros espaços. Ao mesmo tempo em que isso pode ser problemático, historicamente, essa relação entre saúde e sexualidade foi muito importante para lidar com alguns dos mitos existentes.

O orgasmo feminino e a medicalização da sexualidade no século XXI

Disseminar mitos sobre a sexualidade feminina e fazer com que mulheres não tenham conhecimento do próprio corpo teve uma função social histórica: o controle social.
O surgimento tardio da ginecologia como uma especialidade da medicina mostra que até o século XXI a sexualidade feminina havia sido pouco explorada. No início, a ginecologia se resumia a pensar e estudar a mulher como um corpo determinado à reprodução somente.
A medicina desconhecia o orgasmo feminino e, a partir do momento em que passa a considerar o orgasmo – somente no século XX – é que o campo da sexologia avançou.
Com o avanço da sexologia e com o surgimento do movimento feminista no século XX, a mulher passou a ser vista como agente e sujeito de prazer sexual. Métodos contraceptivos foram desenvolvidos e a saúde sexual da mulher passou a ser considerada em diversas esferas médicas e sociais.
O orgasmo aparece como indicador de bem-estar, tanto para homens como para mulheres, no século XX. A partir daí, também surgem novas categorias de patologias relativas ao sexo, novas pedagogias do corpo, novas subjetividades advindas desta realização do sujeito via sua vivência sexual e, certamente, novas estratégias de normalização da sexualidade e do prazer”, explica a antropóloga e doutoranda em antropologia, com ênfase em corpo e saúde pela UFRGS, Lara Costa Duarte.
Desde então, contudo, a sexualidade feminina e os vários mitos ainda disseminados ajudaram a formar um novo contexto: a medicalização da sexualidade. “As últimas décadas assistiram ao aumento exponencial de terapias, medicamentos, tratamentos, tecnologias e intervenções que se propõem a auxiliar as pessoas a resolverem desordens e dificuldades de cunho sexual que são traduzidas, de modo literal, em questões referentes à qualidade de vida”, pontua a pesquisadora.
Se por um lado a medicalização da sexualidade fez com que o prazer feminino fosse finalmente um tópico de investigação científica, por outro, ela não foi capaz de tornar o prazer sexual das mulheres algo além de uma função secundária ao prazer sexual masculino.
“Ao definir marcadores de normalidade bastante rígidos, a medicalização da sexualidade reforçou noções há muito cristalizadas de que a sexualidade feminina se define primordialmente enquanto mero complemento de seu equivalente masculino. Assim, se a sexualidade masculina normal é definida pela capacidade de penetração – e a disfunção sexual masculina é justamente a perda dessa capacidade –, a sexualidade feminina normal também é definida a partir deste modelo de modo que o orgasmo normal ou ideal da mulher precisa decorrer desta atividade”, critica a pesquisadora.
No documentário norte-americano A Indústria do Orgasmo, a diretora Liz Canner investiga a corrida das indústrias farmacêuticas para mudar nossa compreensão sobre o significado de saúde, doença, desejo, sexo e orgasmo. Se aproveitando dessa nova noção do que seria uma normalização da sexualidade e do prazer feminino, Canner apresenta como as indústrias estão distorcendo conceitos de saúde, doença e orgasmo feminino para desenvolver o Viagra para mulheres.
No Brasil, um dado importante sobre a relação da sexualidade feminina com a medicina é o número de cirurgias plásticas íntimas realizadas no país: somos o campeão mundial neste procedimento. Somente em 2014, 15.812 mulheres passaram pelo procedimento. Além de ser o campeão em plásticas de ninfoplastia – a cirurgia da intimidade – o Brasil também realiza as plásticas de clitoroplastia, cirurgia que reduz o volume do clitóris e aumentar a sua área de exposição.
Por oferecer um caminho mais rápido para a solução do que seriam “disfunções” relacionadas à sexualidade, Duarte explica que a medicina tem se colocado como central na vida de muitas mulheres na resolução de problemas que poderiam ser resolvidos, muitas vezes, fora dos consultórios. “Embora a psicologia também tenha um papel importante a desempenhar no que concerne o entendimento da experiência sexual, torna-se muito difícil concorrer com as soluções de efeito imediato que são frequentemente prometidas pela medicina clínica. Tudo isso compõe o cenário a que se chama de ‘medicalização da sexualidade feminina’”.

Com quem falar sobre sexo?

Segundo a ginecologista Carolina Ambrogini, especialista em saúde feminina e sexualidade, é comum a primeira consulta ao ginecologista ter como motivo a perda da virgindade e a procura por métodos contraceptivos. “Algumas mães trazem as filhas antes disso, quando começam a menstruar e ter muita cólica menstrual, mas no geral vêm quando iniciam a vida sexual”, relata a médica. “As meninas começam a vir com o objetivo de pedir um anticoncepcional, mas não veem para se informar sobre sexualidade, somente para resolver alguma coisa física ou pedir uma receita”.
A ginecologista afirma que sempre aborda a sexualidade nas suas consultas, até nos casos em que as meninas só vêm para pedir um anticoncepcional. “Mas sou especialista em sexualidade, então sei que não é comum um ginecologista, somente, falar sobre isso”. Mesmo sendo um consultório especializado no tema, Ambrogini conta que as meninas e mulheres que atende, na maioria, ainda sentem vergonha de conversar sobre corpo, sexo e orgasmo.
Para investigar como as mulheres lidam com essas questões, a reportagem da Azmina ouviu 16 mulheres entre 22 e 54 anos e de diversas profissões de formação universitária. O principal dado levantado mostrou que a falta de informações sobre sexo, sexualidade e o funcionamento do próprio corpo fez com que várias experiências relacionadas à puberdade fossem motivo de vergonha de si própria para todas as mulheres do grupo entrevistado.
A desinformação está na base desses sentimentos e confusões.
Quando questionadas sobre a primeira vez que ouviram falar de sexo, somente duas mulheres do grupo contaram ter recebido as primeiras informações dentro de casa e ainda na infância: “Eu devia ter entre 6 e 8 anos. Num sábado de manhã, meus pais chamaram eu e meu irmão, deitamos junto com eles na cama e eles nos explicaram como os bebês eram feitos. Meu pai foi desenhando num caderno os órgãos sexuais e mostrou ‘a sementinha’ que saia do papai e entrava no ‘ovinho’ da mamãe e como essa penetração era feita”, relata a fotógrafa Marina. Na adolescência, contudo, o assunto sobre sexo foi se tornando menos presente na família de Marina. “Meus pais tem a cabeça muito aberta e sempre me deram muita liberdade e independência. Mas, curiosamente, sexo até hoje é o único assunto do qual não falamos”.
Sobre as mulheres que receberam informações sobre sexo e sexualidade na escola, com professores, somente seis entrevistadas informaram que o ambiente escolar teve papel importante no ensinamento dessas questões. Vale destacar que essas seis mulheres representavam a faixa etária mais jovem do grupo, com até 32 anos.
A estudante de letras Maria Carolina Lima, 22, conta que recebeu orientações sobre sexo e reprodução dentro de casa, mas o assunto não chegou a se estender para sexualidade. “Minha mãe e minha madrinha começaram a falar comigo sobre prevenção da gravidez quando eu comecei a menstruar, aos 10 anos”, conta. “Na escola, lembro de uma única vez, na sétima série já, em que tivemos aulas sobre sexo, preservativos e menstruação. Mas foi somente essa vez. Agora, algo que nunca ninguém me deu informação, em casa ou na escola, foi sobre masturbação”. Tanto a universitária, como a maioria das mulheres do grupo, citou que, por nunca ter recebido informação sobre masturbação na adolescência, acreditava que o ato era “não natural para meninas”, “algo sujo” e “errado”.

O prazer no consultório médico

A dificuldade para lidar com o tema da sexualidade se estende também para o consultório médico: 11, das 16 entrevistadas, responderam que a primeira consulta com um ginecologista teve como objetivo iniciar o uso da pílula anticoncepcional; mas 8 mulheres responderam que a relação com o ginecologista atual é distante e sem liberdade para conversar.

Maria Carolina conta que a primeira consulta ao ginecologista, cujo o motivo era o início da vida sexual, foi tranquila e recebeu um bom atendimento, mas mesmo assim não confia em todo profissional. “Não tenho vergonha de me informar no consultório médico, mas já decidi que se o ginecologista decide emitir opiniões pessoais e não leva em consideração meu bem-estar emocional e o que eu quero do meu corpo, ele não serve para mim. Infelizmente, há muito médico, não só ginecologista, que perde mais tempo tentando aplicar a moral dele em você”, relata a universitária. “Quando eu tinha 17 anos, precisei fazer uma cirurgia para remover o apêndice. Ao chegar com dor no hospital e relatar que era no baixo ventre, o primeiro médico que me atendeu insistiu que eu deveria ou estar com dor de cólica ou com alguma DST. Disse que era virgem, de fato eu era na época, mas ele insistiu dizendo que eu não precisava mentir só porque estava com minha mãe. Precisei insistir que não havia como eu ter uma DST, já que nem beijo eu tinha dado na vida, para ser atendida”.
Além da sexualidade, também há falta de conhecimento dos profissionais de saúde sobre as diversas orientações sexuais identidades de gênero. “Esse panorama piora se falamos nas identidades de gênero. É comum um ginecologista que não é especializado em sexualidade confundir os termos ‘trans’, ‘travesti’ etc, por exemplo”, explica a ginecologista Ambrogini.
Nesse contexto, segundo a Médica de Família e Comunidade, Luíza Magalhães, mulheres que não correspondem ao padrão héteronormativo também podem enfrentar uma barreira a mais nos consultórios. “A maioria das pacientes que se relacionam com outras mulheres se queixam que, ao dizerem que são sexualmente ativas aos seus médicos, os profissionais assumem que, necessariamente, essas relações são com homens”, relata Magalhães, que faz parte do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, uma “Organização Não Governamental, que desenvolve desde 1981 um trabalho com especial foco na atenção primária à saúde das mulheres, a partir de uma perspectiva feminista e humanizada”. Segundo a médica, existe uma dificuldade em enxergar a mulher como um sujeito que deseja e pode fazer escolhas, inclusive com relação a sua sexualidade. “Ainda é comum que se espantem que mulheres podem desejar outras mulheres, enquanto que, com homens, o espanto com a homossexualidade é menor”, conta.
Magalhães explica que mais que um preconceito, a falta de atenção do profissional com pacientes lésbicas pode ser um fator prejudicial à saúde dessa mulher. “Quando a mulher consegue dizer que se relaciona com mulheres, é comum que seja tratada como virgem. Por isso, muitos profissionais deixam de realizar o exame ginecológico quando indicado ou deixam de colher o Papanicolau, o que coloca as mulheres que se relacionam com outras mulheres à margem do cuidado em saúde adequado, retardando a realização de exames e diminuindo a chance de atuar preventivamente”, explica a médica.

A internet como alternativa

Nesse cenário de distanciamento entre paciente e médico, a internet surge então como alternativa para muitas mulheres, uma fonte de informação com as quais se sentem mais confortáveis para esclarecer as dúvidas e trocar ideias.
A educadora física Emilie, por exemplo, conta que hoje se informa pela internet. “Todas as minhas dúvidas são respondidas através do grupo que participo no Facebook e também conversando com minhas amigas. Sinto que todos os médic@s a que fui estavam ali apenas para falar o necessário e sobre hormônios e nada mais”. E não só ela: dez das entrevistadas responderam que atualmente se informam sobre métodos anticoncepcionais, hormônios e sexualidade muito mais na internet e com aplicativos do que com profissionais da área da saúde ou dentro da família.
Para Ambrogini, buscar informações somente online, contudo, pode ser preocupante. “As mulheres se informam de maneira errada às vezes, pois, no Brasil, temos muito pouco de educação sexual nas escolas e dentro de casa. Mas muitas mulheres têm vindo ao meu consultório para tirar dúvidas sobre o que leram na internet e este é um comportamento muito legal”, explica.

 Uma nova ginecologia 

O comportamento de frequentar um ginecologista somente para pedir a prescrição de um remédio ou a indicação de um método contraceptivo, para Ambrogini, também é reflexo do comportamento de profissionais da área da saúde que, por não estarem preparados para conversar sobre sexo e sexualidade com as mulheres, não conduzem um atendimento sob uma perspectiva de gênero, mas somente por uma perspectiva clínica.
“Na minha residência médica em ginecologia não havia nada voltado para sexualidade e é assim nas residências do Brasil: não existe formação em sexualidade e as que oferecem algo na área, ainda são muito precoces. Nas faculdades de medicina, as disciplinas sobre sexualidade também são muito incipientes. Apesar desse tema ter evoluído bastante nos cursos nos últimos tempos, a verdade é que se o profissional quer se informar sobre, ele mesmo tem que ir atrás dessa formação”, afirma a médica, explicando que é comum a sexualidade ser matéria apenas optativa nas faculdades que oferecem a disciplina.
É um ciclo: o ginecologista não recebe formação em sexualidade na especialização. Por isso, ele não aborda nas consultas porque talvez não se sinta preparado para abordar, então ele medicaliza a consulta: ele aprendeu uma fórmula de hormônios e aplica isso no seu dia a dia”.
Ambrogini cursou a segunda turma de especialização em sexualidade da Universidade de São Paulo e, ao final do curso, em 2005, montou o Projeto Afrodite, no Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo. O objetivo do projeto é o de fornecer informações sobre sexo e sexualidade às mulheres, desde o reconhecimento do próprio corpo até orgasmo e prazer nas relações sexuais. Além dos médicos, o Projeto Afrodite conta com fisioterapeutas e psicólogos.
A diversidade de profissionais em variadas áreas que atendem no Projeto Afrodite também pode ser visto no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. Segundo a médica da Família e Comunidade Nathália Cardoso, é importante apontar que, não necessariamente, o médico que aborda a sexualidade de mulher é um ginecologista. “No Coletivo, por exemplo, a maioria das médicas são generalistas em atenção primária à saúde (Médicas de Família). A conduta que questionamos não é exclusiva de ginecologistas, é algo que começa no início da formação médica, muito antes da escolha da especialidade”, explica a médica.
Para as médicas do Coletivo, o cuidado à mulher não envolve somente exames ginecológicos, mas sim um cuidado à saúde integral feminina.
Segundo Aline Oliveira, Médica de Família e Comunidade, “O termo ‘rotina de exames’ já parece condicionar a mulher à dependência das intervenções médicas. No entanto, a atenção com o corpo, conhecer as estruturas genitais, aprender o que é normal e o que é alteração no corpo feminino, são a melhor resposta ao que podemos chamar de ‘rotina’”.  “O que é surpreendente é que são poucos os exames sugeridos e na maior parte das vezes somos submetidas a exames e avaliações desnecessárias”, explica Oliveira.
A médica explica quais são os exames essenciais: “O papanicolau está indicado para mulheres a partir dos 25 anos, que já tiveram relação sexual. O exame deve ser repetido anualmente e, com dois exames normais, a rotina passa a ser a cada três anos. A mamografia está indicada para mulheres acima de 50 anos e deve ser repetido a cada 2 anos”, esclarece Oliveira. “Já os exames de sangue são indicados para as mulheres e homens, independente da idade, que consideram ter sido expostos a risco (sexo sem camisinha, por exemplo). Essas são as sorologias de doenças sexualmente trasmissíveis: HIV, sífilis, hepatite B e C”.
“Outros exames podem ser necessários e bem indicados presença de sinais, sintomas, histórico familiar ou fator de risco. Aqui entram, por exemplo, os rastreios para diabetes, hipertensão, dislipidemias, osteoporose e câncer colorretal. Nenhum deles deve ser pedido para todas as mulheres indiscriminadamente e fora do intervalo recomendado. Vale lembrar que ultrassom de mama, tireóide ou transvaginal de rotina, em mulheres saudáveis e assintomáticas, são contraindicados”, complementa a médica Cardoso.
No que diz respeito a ginecologia, para Ambrogini, é preciso que os consultórios passem a promover um atendimento diferente. “Seria essa uma ginecologia capaz de fornecer informações para que as próprias mulheres pudessem se conhecer, ter domínio do seu próprio corpo e serem livres para escolher o melhor método contraceptivo que mais lhe convém. Mais que isso, uma ginecologia que abordasse a sexualidade sem preconceitos, que fizesse as mulheres não terem mais nojo da própria vagina e suas secreções para que se sintam empoderadas com o seu próprio corpo”, defende a ginecologista. “O nosso corpo fala, mas para escutá-lo precisamos conhece-lo”.
Oliveira explica que as consultas invasivas possuem vários fatores: a falta de escuta, a falta de tempo do profissional no atendimento, a falta de vínculo e a imposição da vontade médica sobre a vontade da mulher que está sendo atendida. “Nesse contexto, quando a mulher está tensa e já se sente violentada por não ser sujeito de seu atendimento, a chance do exame ser dolorido aumenta. Além disso, o desconhecimento do próprio corpo e do processo do exame (como é, que partes visualiza, que materiais são usados) pode tornar tudo mais difícil”. A médica conta que, pensando em evitar esses desconfortos e promover um atentimento feminista, a proposta no Coletivo é que a mulher realize o auto-exame. “A mulher é parte ativa do processo, conhecendo o próprio corpo e realizando cada passo do atendimento em seu próprio ritmo, o que aumenta confiança e diminui a dor. As mulheres relatam maior conforto quando elas mesmas introduzem o espéculo (aparelho usado para exame interno da vagina e coleta do papanicolau) e sentem-se confiantes ao participarem do exame observando o próprio corpo com um espelho”, relata.

"A sociedade branca bebe, come e dança a cultura negra" - Entrevista com Antônio Pitanga

Pai e filha, os atores Antônio e Camila Pitanga falam sobre a política e a história do negro no Brasil e sobre o documentário biográfico 'Pitanga'

Documentário 'Pitanga' narra a trajetória artística, política e filosófica do ator Antônio Pitanga

Marcando sua estreia como cineasta, Camila Pitanga esteve na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes para a exibição do aclamado Pitanga, documentário dirigido em parceria com Beto Brant, que conta a trajetória artística, política e filosófica de seu pai, o também ator Antônio Pitanga, em conversas descontraídas com seus amigos, ex-amores e companheiros de profissão.
Projetado em praça pública, no histórico Largo das Forras, o filme sensibilizou a plateia, fez rir e inspirar, alçando o prêmio de melhor longa-metragem pelo júri popular. Está previsto para estrear nos cinemas em abril deste ano.
Os Pitanga, pai e filha, conversaram com CartaCapital sobre o documentário, a questão da mulher negra e a política e a história do negro no Brasil. Confira:
CartaCapital: No documentário, você afirma que negros e mulheres devem se unir, pois compartilham um lugar comum de opressão nesta sociedade. Considerando que a mulher negra sofre duplamente pelo racismo e pelo machismo, como vocês veem o papel do homem negro na luta das mulheres negras?
Antônio Pitanga: Por que não ser aliado? Se acontecer alguma revolução cultural ou social, ela será feita por homens negros e mulheres negras. Por que eu vou ser superior, porque sou homem? Essa cultura machista foi esculpida pelo colonizador branco. Não é minha, não é nossa. Tenho a certeza absoluta que se trata de uma pobreza intelectual e de sentimentos quando o negro não entende a mulher negra e quer fazer dela exatamente o que o branco faz com ele.
Por isso eu entendo minha mãe, Maria da Natividade. Filha e neta de escravas, ela tinha um comportamento de jamais abaixar a cabeça – e trabalhava pros brancos sem salário. Não é porque ela está como uma serviçal que entendia seu potencial e sua riqueza intelectual. Tudo de ruim foi colocado para nós e vamos querer dominar a mulher negra, fazer o que o branco faz com a gente? 
Nossa contribuição nessa sociedade brasileira é muito maior. Essa sociedade branca, que não reconhece a gente, bebe, come e dança a nossa cultura. Até na maneira de se expressar, tudo vem de nós. A formação do homem vem da África. Mas temos dificuldade de entender.

Camila Pitanga: No documentário, a personagem da Léa Garcia fala "eu não vou ser escrava nem de branco, nem de negro". Infelizmente, essa cultura escravocrata não é só uma relação de submissão e de opressão do branco sobre o negro. Muitas vezes, ela é também mantida na relação do negro com o negro e do negro contra a negra.
CC: Antônio, você viveu um período no continente africano, em missão cultural. Como essa experiência se refletiu em sua vida enquanto um artista negro brasileiro?
AP: A África sempre foi um desejo. Vim de uma família muito pobre e não entendia, quando criança, que teria essa chance de ir para lá. Quando enveredei para o mundo artístico, já comecei a enxergar a possibilidade de isso acontecer.
Escolhi uma profissão que é uma janela para o mundo. Os artistas, todos éramos considerados marginais. Eu já era perseguido e já compreendia o preconceito da frase "é negro e ainda vai ser artista?". Escolhi "vou por ali", contra esse sistema.
Eu não fui para Europa, como tantos amigos que tiveram que sair do país em 1964. Escolhi o exílio na África porque queria saber de qual África eu tinha vindo. Tinha noção de que a minha parte e da minha família foi queimada pelo Rui Barbosa. Aqueles papéis que eu poderia buscar, eu não tinha mais.
Saí do Brasil pela porta da frente, em missão cultural, em pleno governo Castelo Branco, porque tinha uns fãs no Itamaraty que admiravam o nosso trabalho.
E eu escolhi passar quase dois anos caminhando por alguns países que tivessem o dialeto, a língua, as danças, a culinária, mais próximos e que eu pudesse entender e me achar. Escolher a África já é uma atitude política.

Com o apoio dos camaradas do Itamaraty, que eram fãs do Cinema Novo, consegui exibir três filmes, Barravento, Ganga Zumba e Esse Mundo é Meu para os presidentes de países como Gana, Nigéria, Senegal. Queria mostrar também como os negros brasileiros se comportavam e como estavam.
Era também pra eles uma revelação primeira. Com a luta pela consciência dos seus direitos e para expulsar o colonizador, não tinham tempo pra ainda entender o Brasil.

Fiz essa caminhada para entender o ser Pitanga, de onde essa família tinha saído, já que nós viemos de vários carregamentos. Viajei para estudar, debater, mostrar o negro brasileiro e como nós estávamos reagindo à opressão. Tive muitos problemas com embaixadores da África Branca, que não entendiam o que eu estava fazendo ali.
CC: Nessa África revisitada, o que você descobriu?
AP: Eu achava que vinha da Nigéria e realmente sou de lá, de Daomé, me achei ali. Isso me humanizou. Já tenho 77 anos e fico tentando entender essa incapacidade da raça negra de não entender o coletivo.
Meu ídolo em toda essa formação do Brasil é o Luiz Gama. A gente tem que entender a trajetória desse rapaz, advogado, filho de Luisa Mahin e de um fidalgo. Com 10 anos, ele é colocado na mesa de jogo e faz parte de um lote [de escravos] que vai para o Rio de Janeiro. Era essa criança, nascida livre e tornada escrava.
Como rábula [nome dado a quem advoga sem ter diploma], Gama consegue livrar do açoite centenas de milhares de negros. O enterro dele foi disputado a tapa pra segurarem o caixão. Ele botava o dedo na ferida e convencia a sociedade branca que ela estava errada.

Fico com dificuldade de entender como nossos iguais não elegem uma fonte de conhecimento.Eu sou de uma família com um percentual de representatividade acima de 50%, nós negros somos maioria e não nos entendemos. Que dificuldade é essa? 
As lutas do passado continuam. A dívida é muito grande e antiga com a comunidade negra. Meus filhos não tiveram nenhuma perseguição, mas não é por isso que eles não têm essa consciência.
Quando você liga a televisão pra ver uma dramaturgia, o percentual é de quase zero negros, mas, mesmo assim, a maioria assiste e não te elege, prefere eleger o branco de olhos azuis. O meio de comunicação é o “vil metal”. É preciso eleger os seus, num reconhecimento de si mesmo.
Eu não quero enxergar o mundo por uma fresta, quero abrir todas as portas e janelas, ver a claridade entrar. Eu seria muito mais se a nossa sociedade [elegesse] Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta. Precisamos reconhecer o seu valor, oferecer o mesmo reconhecimento expressado que o branco tem. Você pega um Tarcísio [Meira] – nós viemos da mesma época – onde está o Tarcísio e onde está o Antônio Pitanga?
Estou firme, mas não pelo reconhecimento de nossa sociedade. Já o Tarcísio está vários corpos na minha frente. Hoje temos pessoas como a Camila [Pitanga], como a Tais [Araújo], a Sharon Menezes, o Lázaro Ramos – tiro o chapéu pra eles.
No meu caso, no de Milton, Abdias [do Nascimento] ou Grande Otelo, o preconceito era radical. Agora já estamos em uma sociedade que reconhece o talento deles. Nós, no passado, éramos desbravadores, não tivemos o peso do reconhecimento de nossa sociedade.
Claro, ainda há um mito da democracia racial. Se você assistir os filmes que eu fiz, a altivez do ator e do personagem é a mesma. Precisamos criar aliados. Entender que você tem uma janela e pode compor com outras pessoas.
CC: Você pode adiantar pra nós sobre o seu novo projeto, um filme que vai contar a Revolta dos Malês?

AP: Os Malês eram os negros do norte da África, que falavam árabe e tinham conhecimento da Física, da Ciência e da Aritmética. Esses caras fizeram uma aliança com os negros do candomblé pra tomar o poder. Não é a história de negros coitadinhos do Pelourinho, são negros que detinham o conhecimento em 1835. Eles são de religião islâmica e compuseram um exército com os negros do candomblé, do catolicismo, e tiveram a capacidade, esse gesto nobre, de compor um exército assim.
Eu sou malês. Então, quero ter essa altivez, essa generosidade, essa maneira de enxergar o outro e crescer com outro, embora tenha uma opinião diferente. Não é porque sou negro que tenho que ser sambista ou jogador de futebol. Não é por isso que vou deixar de ser negro.
Eu quero ter minha opinião. Se eu não fui um negro alforriado, não fui um escravo, sou um negro liberto e saí das correntes. Mandar em mim não dá. Eu prefiro ser esse negro em movimento, para ter a capacidade de pensar, avançar e recuar. Por isso, nada contra os movimentos negros, mas eu sou um capoeirista mental. Depois que entendi que tinha asas para voar, quero voar.
CC: Você tem encontrado dificuldades para a realização do filme?
AP: Quero contar uma história da nossa família, da nossa sociedade e dos nossos irmãos. Sobre onde nasce o levante mais importante que aconteceu nesse País, quando os negros oprimidos entenderam que eram mais de 60% da população baiana. Muitos malês já vinham com culturas de liberdade da África e acreditavam que iriam inaugurar o islamismo no Brasil. Eles tinham uma estratégia de tomar o poder, como tinha Napoleão Bonaparte.
Não é só contar a nossa história, mas a história brasileira. O Brasil não conhece o Brasil. É uma maneira de você, através dos Malês, entender a própria história desse país e também do negro entender sua própria história.
Ainda estou captando recursos para esse projeto, mas digo abertamente que estou ali como uma missão: ele não é meu, estou ali como instrumento.Gostaria de entregar esse filme ao Ministério da Cultura e ao Ministério da Educação para ser exibido em praça pública, nas comunidades, nas vielas, nos becos. Um filme que a gente tenha oportunidade de revisitar nossa própria história.  
CC: O que mudou durante os governos Lula e Dilma no meio artístico e social? Como você vê o contexto político que estamos vivendo? 
AP: Eu já vivi várias épocas: a Guerra Mundial, o golpe do Dutra, Getúlio Vargas, o golpe de 1964. Vi o mundo dar uma guinada de 180 graus, toda a revolução, os direitos das mulheres, a chegada da camisinha, da pílula, do homem na Lua. Vi até um zepellin em 1949.
Vi os Filhos de Gandhi rasgarem o ventre da Bahia quando era proibido o negro desfilar. Vi Grande Otelo, Ruth de Souza e vi Leá Garcia ganhar a Palma de Ouro. Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho – pessoas como eu, que estavam na estrada, me passaram o bastão e eu continuei essa história.
Vi a chegada do negro no cinema. Evoluímos e tomamos os espaços. Hoje, em 2017, eu vejo o negro chegar um pouco mais. Conquistamos muitas coisas na política, mas vejo a regressão e que tivemos algum tempo no poder, mas sem tomar conta de todo esse ganho.
Se tivéssemos tomando conta, não viveríamos essa situação delicada de eu estar com 77 anos e viver outro golpe.
Agora, teremos que reinventar. Eu quero ter força pra viver de novo os momentos que vivi com a distribuição de renda feita por Lula e Dilma. Esse filme eu já vi.
Estou muito preocupado, porque agora são meus filhos, netos e bisnetos, são esses jovens que estão começando a caminhar com suas próprias pernas. Precisamos respirar um pouco e pensar de que maneira vamos enfrentar essa tempestade.
É um momento que jamais pensaria, de um grau de embrutecimento da nação muito grande. Já lutamos contra isso. É 2017 e estamos passando por isso de novo? Que capacidades teremos pra detectar o grau dessa tempestade e continuar de pé com dignidade de entender e participar da luta do outro? É um momento que estou querendo entender.
CP: Acho estamos vivendo um momento no qual as pessoas querem se entrincheirar em um só lugar. Precisamos ter um entendimento dialético da vida, no qual a gente não pode ficar num só lugar. Precisamos repensar, dialogar com todos e se colocar na posição de todos. Uma mulher, claro, principalmente as mulheres negras, sofrem de maneira atroz e doída uma série de opressões que eu mesma ainda não tenho a dimensão na minha carne. Mas, como ser humano, estou aberta para ver o outro. Eu sei disso e sei também precisamos falar muito disso, gritar muito, pra contrapor.
CC: Antônio, qual o conselho você daria hoje para essa nova geração de artistas negros?
AP: O artista negro, década a década, tem-se colocado de uma maneira maravilhosa com a música, as artes plásticas e com a dança. Mas em que momento a gente entende essa contribuição no coletivo, que não seja só pra um? Que não seja só para dançar pra alguém bater palma? 
O conselho que eu dou é que o jovem possa entender sua raiz, possa se comunicar mais com o outro – o outro tem muita história pra contar, já que nós viemos de várias Áfricas. 
Eu perguntaria: de que maneira você pode alimentar o outro e vice-versa? Para quem você está escrevendo, grafitando, contribuindo? Você tem que entender quem é você e qual é o seu papel.
E é um papel valiosíssimo, pois seus irmãos ainda são perseguidos, oprimidos, sofrem preconceito, suas irmãs, ganham menos do que o homem negro.
É a revolução do conhecimento. Procure olhar no espelho, quem sou eu? Acho que é entender seu habitat intelectual, sua formação, a maneira de discutir, defender e colocar sua questão, sem medo de se expressar.
A gente acha que não pode incomodar. Eu quero incomodar, vim para incomodar. Às vezes eu fico muito triste com nossos irmãos, que querem mais contentar uma sociedade opressora do que entender os nossos.

As mulheres do zika foram esquecidas

Abandonadas pela política pública, mães e crianças sobrevivem como podem a uma das maiores tragédias já vistas no Brasil

No Sertão de Alagoas, mães com filhos afetados pelo zika andam de mototáxi, com a criança espremida entre o motorista e o próprio corpo


medo é agora realidade: as mulheres do zika foram esquecidas. As eleições acabaram e, nos interiores do Brasil, não há mais candidato a vereador levando e trazendo as mulheres e crianças para os exames.
Completou-se um ano do anúncio da emergência global pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e não houve nenhum pronunciamento do governo brasileiro.
As promessas de benefícios especiais, centros de referência, cuidados precoces foram quase todas engavetadas pela crise econômica. Os bebês estão amadurecendo, e as mães cada vez mais sozinhas. Se antes carregavam os miudinhos no colo, agora sentem o peso da criança sem andar.
O governo federal prometeu que toda criança seria feliz. Felicidade é promessa gigante para política pública; exige mais do que primeira dama de azul.
Queria muito que Marcela Temer visitasse o Sertão de Alagoas e conhecesse as mulheres dos povoados afetados: saem de casa de madrugada, andam de mototáxi ou bicicleta, com a criança espremida entre o motorista e o próprio corpo; tomam um carro da prefeitura na estrada, e não há isso de cadeirinha como manda a lei. A criança viaja no colo.
O governo federal prometeu que toda criança seria feliz. A promessa, porém, não chegou ao Sertão

Chegam as duas cansadas, mas a criança irritada. Passam o dia sem comida e no calor, voltam à noite para casa. Algumas sem qualquer atendimento, pois o exagero da viagem desencadeia convulsões na criança e não há como acalmá-la.
Uma segunda geração de mulheres teve zika na gravidez, e seus filhos nasceram afetados pela síndrome neurológica. As mulheres da primeira geração discutem as aparições da síndrome a cada dia, “meu filho passou a ter hidrocefalia depois da microcefalia”, “o meu está internado”, “o meu tem dificuldades para beber líquido”.
Não sei se há alguém feliz nesta tragédia humanitária.
Talvez, haja gente aliviada pelo silêncio. Se não houve pressão pública pelo anúncio do primeiro ano da epidemia global, é porque o problema não mais existe: zika acabou no Brasil, dizem alguns.
Vamos cuidar da nomeação do ministro da suprema corte que acredita em tática bélica como solução para justiça, do cabelo raspado do milionário preso, ou do Carnaval que se aproxima.
Enquanto isso, as mulheres sobrevivem como podem a uma das maiores tragédias do Estado brasileiro, a epidemia do zika

MEU SILÊNCIO


Autor: Um Alguém
Decidi que as palavras não têm mais valor.
Tornaram-se vazias de conteúdo.
Meus sonhos perderam-se no tempo por falta de sentido.
Minha voz, calou.

Não acredito! Perdi meus versos…
Estou cansando de olhar a janela e ver a dor caminhando por entre as ruas,
ver o ódio dominando firmemente os corações,
viver em um imenso espaço esquecido.

Qual o sentido de sair por aí defendo ideais,
se mesmo aqueles que assumem defende-los optam pelo esquecimento?
Qual a vantagem de gritar por liberdade
se apenas nos resta a prisão?

Somos escravos do tempo,
somos escravos da métrica,
das decisões concentradas em poucas mãos,
somos, apenas, escravos…

Não acredito mais na paz,
apenas a guerra tem voz!
Apenas o sangue daqueles menos afortunados é derramado
e o desejo vil do enriquecimento pelas armas venceu.

Não me falem em amor!
Amor é para os fracos, para aqueles que sonham!
Quem dá as cartas é o ódio, o desejo pérfido de vingança,
a vontade única de ver o sofrimento alheio.

Não aguento mais tentar falar, tentar gritar,
nem mais a frustação dos diálogos bloqueados.
Resta-me, apenas, reproduzir o silêncio.
Sufocar as minhas palavras.

Serei condenado eu sei, pois afinal, a paz é interior!
A felicidade somente pode ser encontrada dentro de si.
Devemos ser pedras duras e jamais tentar viver em sociedade.
Tudo é interno. Somos a síntese pura do domínio do dinheiro.

Não pensem em política,
esta foi destruída por aqueles que pensam apenas em si.
A política virou um projeto pessoal.
E Maquiavel, coitado, foi deturpado.

Esperança, sonhos, utopias, amor…
são apenas palavras feias, esquecidas no novo dicionário.
Nunca utilize estas palavras,
pois mais que acredites, são apenas ofensas.

Pois este, senhoras e senhores, é o mundo em que vivemos!
A história terminou!
Nada mais tem sentido!
Apenas um silêncio cruel, violento, domina

Estupro, câmeras e likes

O que leva agressores a postar imagens da violência sexual? 

Desenhos sobre violência sexual - Escola Adriano Mosimann
POR MARIA LAURA NEVES Revista Marie Claire

Passaram-se pouco mais do que seis meses desde que o caso de uma menina de 16 anos foi vítima de um estupro coletivo que chocou o Brasil, quando outro crime bárbaro tomou as manchetes. Há duas semanas, o Brasil ficou sabendo que uma menina de 11 anos foi brutalmente violentada por cinco homens no Distrito Federal.

Os requintes de crueldade são sempre os mesmos nesse tipo de caso: uma gangue de moleques, um homem maior de idade, a vítima acuada ou drogada, a violência. E uma câmera. Tudo é filmado pelo celular e compartilhado nas redes sociais.

Em Juiz de Fora (MG), uma garota de 13 anos foi estuprada por ao menos oito pessoas. As imagens do crime foram, novamente, publicadas na internet. A violência teria acontecido após uma festa junina, e os responsáveis seriam traficantes da região.

O mal, claro, não é só dos brasileiros. Na semana passada, um estupro coletivo em Upssala, uma cidade universitária na Suécia, foi transmitido pelo Facebook Live para um grupo fechado de espectadores na noite do sábado, 21 de janeiro. Depois de uma série de denúncias, policiais chegaram ao apartamento onde o crime ocorreu e prenderam três homens de 18, 20 e 24 anos. Programas de televisão suecos dizem que circulam dois vídeos na rede: no primeiro o crime em si e, no segundo, a vítima é obrigada a dizer que não foi estuprada.

O que está por trás desse comportamento bizarro? O primeiro motivador é a cultura do estupro. O homem não acha que o ato que comete é crime porque parte do pressuposto que o corpo da mulher lhe pertence. E que o fato de ela estar inconsciente, drogada, bêbada ou simplesmente ter ido ao encontro dele é uma forma de consentimento. Sempre bom frisar que não, não é.

Por isso, a hipótese é de que encarem as imagens como uma nova modalidade de pornografia. Um estudo do Centro de Prevenção a Violência Sexual dos Estados Unidos mostrou que um dos principais motivadores da Violência Sexual é o sentimento de impunidade. E a cultura do estupro não influi somente nas atitudes dos homens.

No começo do ano passado, uma adolescente americana passou a responder judicialmente pelo crime de estupro porque que filmou uma amiga sendo violentada e transmitiu as imagens pelo Periscope.

Nas imagens, a vítima chora, diz “não” e pede para o agressor – um homem de 29 anos que ambas conheceram no dia anterior em um shopping Center - que pare. Enquanto isso, a adolescente que filma, brinca e ri. Uma seguidora estarrecida ligou para a polícia. A promotoria acredita que a adolescente que fez o vídeo pode até ter tentado intimidar o estuprador com o telefone, mas à medida que a transmissão foi gerando likes, desistiu do propósito. O filme durou 10 minutos.

Outro exemplo de como a barbaridade tem sido exposta nas redes sociais é o caso de um indiano, Cecil Burrows, que foi preso no ano passado também nos Estados Unidos, mais precisamente no estado de Maryland, acusado de ser um coach de filmes de estupro. Ele foi preso depois de que imagens feitas por ele circularam nas redes sociais e acabaram nas mãos da polícia. No vídeo feito com o telefone, ele pode ser ouvido dando orientações aos dois homens que violentam uma mulher semi-consciente, enquanto ela implora o fim. Ele foi preso.

O discurso das empresas de tecnologia é de que já existem ferramentas para denunciar conteúdo impróprio e que elas agem o mais rápido o possível nesse tipo de situação. O problema é que nem sempre essa velocidade é suficiente para frear a transmissão ou a propagação dessas imagens dantescas. É verdade que elas servem de prova dos crimes, mas embora ajude, a prisão dos agressores não é suficiente para recompor a moral, a autoestima e a saúde física e mental das vítimas, tão machucadas e humilhadas.

Orixás da cultura Yorubá vão virar personagens de histórias em quadrinhos

As grandes histórias da mitologia Yorubá levadas para o universo dos Quadrinhos.



Quanto da nossa cultura você vê nos quadrinhos de super-heróis como o Batman, Homem-Aranha e Super-Homem?


Já pensou que incrível seria se tivéssemos histórias em quadrinhos com personagens da nossa cultura? O desenhista Hugo Canuto teve essa ideia brilhante. Ele conta que tudo começou meses atrás, fazendo ilustrações de orixás de maneira despretensiosa.



Hugo, então, pensou: por que não criar histórias em quadrinhos com esses personagens no papel de protagonistas? A ideia é adaptar para a linguagem dos quadrinhos algumas narrativas da mitologia Yorubá, abordando a saga de alguns orixás: Xangô, Oxossi, Iemanjá, entre outros.

O desenhista mergulhou fundo na cultura Yorubá. Hugo conversou com estudiosos e adeptos das religiões de matriz africana para narrar esse universo com o cuidado e o respeito que ele merece. O artista baiano tem a companhia de outros dois ilustradores no projeto chamado “Contos de Òrun Àiye”.

Para que a gente possa conhecer um pouco mais sobre um dos elementos da nossa cultura, com uma linguagem mais acessível, Hugo lançou uma campanha de financiamento coletivo. A meta era arrecadar R$ 12 mil para arcar com todos os custos do projeto, mas ele conseguiu mais de R$ 48 mil.

A ideia é lançar uma revista com duas histórias fechadas e material extra com ilustrações de artistas convidados, além de pôsteres e camisetas do projeto. A primeira história já começou a ser desenhada. O material deve ser lançado em junho deste ano. Atualizações sobre o andamento do projeto serão publicadas na sua página no Facebook.


Saiba mais no vídeo abaixo:




Veja também algumas ilustrações ligadas ao projeto Contos de Òrun Àiye:
Este é o senhor da cura e da enfermidade

Oxum é a rainha dos rios e cachoeiras.

Elegbá é o mensageiro entre dois mundos

Iansã é a senhora dos ventos e tempestades.

Yemanjá é a senhora das águas, mãe dos orixás.

Ogún é o senho do ferro.

Oxóssi é o caçador.

Xangô é o Deus do Trovão.


Via Maria Preta

Gritaram-me negra

“ Me gritaram negra" 

Este poema é da compositora, coreógrafa e desenhista, expoente da arte afroperuanada Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra.

“ Me gritaram negra" 
(Victoria Santa Cruz)

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!

Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
"Por acaso sou negra?" – me disse
SIM!
"Que coisa é ser negra?"
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!...
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO

Negra sou!


O que você achou do poema? O que achou importante e significativo no decorrer da história que ele narra? Como os discursos que circulam na mídia, nas falas das pessoas influenciam e tolhem a liberdade de se vestir, de se assumir? No decorrer do poema, Victoria assume sua cor, raça e afirma que "de hoje em diante não quero alisar meu cabelo" e que "negra, soa como lindo".

Breve história crítica dos feminismos no Brasil

Excluídas da história oficial, as mulheres fazem do ato de contar a própria trajetória uma forma de resistência. Neste ensaio, publicado na...