Para resgatar a sabedoria dos Quilombos

Na contramão da maré conservadora, avança campanha que quer incorporar ao Patrimônio Cultural Brasileiro a coivara, método agroecológico primitivo que pode aportar algo à Agroecologia






Os quilombolas do Vale do Ribeira (SP) desenvolveram, há mais de 300 anos, uma forma de cultivar alimentos na Mata Atlântica que dispensa adubo ou agrotóxico.

A roça de coivara usa fogo controlado para abrir espaço na mata. Quando a chuva cai, as cinzas fertilizam o solo, que está pronto para o cultivo. Depois de três a cinco anos de trabalho na mesma área, o agricultor quilombola a abandona por outro terreno. Assim, em uma espécie de rodízio, a floresta pode voltar em sua exuberância.

O plantio acontece “no tempo certo” e, geralmente, na lua minguante. Arroz, milho, feijão, inhame, mandioca e cana-de-açúcar, entre outros cultivares, crescem “com a ajuda da natureza”, como afirmou em depoimento Edivina Maria Tiê Braz da Silva, do Quilombo Pedro Cubas de Cima, e atraem a fauna local, que se alimenta de parte dela. As colheitas são comemoradas em muitas celebrações religiosas, em que acontecem a partilha de produtos da roça.

“Quando faz mutirão de colheita tem baile. Junta o povo, é o povo que faz a festa. Dança de par. Violão, sanfona, cavaquinho, pandeiro. Aqui só tem violão. O resto dos instrumentos os convidados trazem. Vamos pro poço tomar banho, pode tomar uma cachaça, depois vai jantar e iniciando na viola”, disse Antoninho Ursulino, em depoimento de 2010.

Esse conjunto de conhecimentos transmitido na prática, em que os mais jovens aprendem ao assistir e colaborar com os mais velhos, compõem o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira, apresentado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com 19 associações quilombolas no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em dossiê, documentos e um documentário, para se tornar patrimônio cultural imaterial brasileiro.

Assista aqui ao documentário sobre o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale do Ribeira.



“O registro como patrimônio imaterial representa o reconhecimento da importância histórica da roça de coivara para a permanência das comunidades quilombolas nos vales e montanhas florestados mais remotos da região”, disse Raquel Pasinato, coordenadora do Programa Vale do Ribeira do ISA.

“Em centenas de anos de interação com o espaço, os quilombolas criaram suas formas próprias de organização social, usos e representações sobre o território, marcando a paisagem do Vale do Ribeira. Embora o sistema agrícola tradicional venha se transformando ao longo do tempo, ele é resultado histórico da experiência das comunidades negras neste território desde o período colonial, e continua sendo o principal meio de vida para muitas famílias”, afirmou Anna Maria Andrade, antropóloga do ISA.


O material foi protocolado no Iphan em 24 de outubro e, agora, o dossiê será avaliado tecnicamente. Se o reconhecimento oficial acontecer, o Iphan juntamente com as comunidades e parceiros devem elaborar e implementar o Plano de Salvaguarda, que envolve o desenvolvimento de ações de fortalecimento do sistema e políticas públicas que fomentem as roças quilombolas.


Para baixar o livro Inventário Cultural de Quilombos do Vale do Ribeira, clique aqui.


Nenhum quilombo a menos

A campanha “O Brasil é Quilombola, Nenhum quilombo a menos!”, lançada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), já recebeu mais de 100 mil assinaturas.

A campanha articulada pela Conaq e organizações parceiras, como o ISA, começou em defesa do Decreto 4.887/2003, que regulamenta a demarcação dos territórios quilombolas. O julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3.239, ajuizada pelo DEM, em 2004, contra a norma, pode ser retomado nas próximas semanas no STF. Assine você também a petição!

O número de quilombolas assassinados no Brasil, em 2017, chegou a 14, de acordo com levantamento da Conaq. Levando em conta os dados disponíveis, desde o início da década, este pode ser o ano mais violento para os quilombolas. Lideranças e especialistas ouvidos pelo ISA apontam que o aumento da violência tem ligação com o cenário político atual, que potencializaria as consequências dos conflitos de terras.


Números


O Vale do Ribeiro abriga, ao todo, 88 comunidades quilombolas em variados graus de reconhecimento pelo Estado. Dos 7% que restaram do bioma de Mata Atlântica em território nacional, 21% estão localizados no Vale do Ribeira.

Em 1999, em virtude da extensa área de Mata Atlântica preservada, esta região passou a Patrimônio Natural da Humanidade, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco).


O que é um Sistema Agrícola Tradicional?

Segundo o Iphan, “sistema agrícola tradicional é o conjunto de elementos, desde os saberes, mitos, formas de organização social, práticas, produtos, técnicas e artefatos, e outras manifestações associadas que envolvem espaços, práticas alimentares e agroecossistemas manejados por povos e comunidades tradicionais tradicionais e agricultores familiares. Nesses sistemas culturais, as dinâmicas de produção e reprodução dos vários domínios da vida social ao longo das vivências e experiências históricas orientam processos de construção de identidades e contribuem para a conservação da biodiversidade”


Exemplo de sistema agrícola protegido como patrimônio cultural brasileiro é o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, no Amazonas. Saiba mais aqui.

AMÉRICA LATINA É A REGIÃO MAIS VIOLENTA DO MUNDO PARA MULHERES, DIZ ONU



A região que inclui América Latina e Caribe é a que tem maior índice de violência contra as mulheres no mundo, uma situação que é mais crítica na América Central e no México, destaca um relatório da ONU apresentado no Panamá nesta quarta-feira (22).

De acordo com o relatório da ONU Mulheres e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o fenômeno de agressão a mulheres persiste apesar da aprovação de leis severas para freá-lo na região.


“O tema da violência contra a mulher na América Latina é crítico. É a região mais violenta do mundo contra as mulheres fora de um contexto de guerra”, declarou à AFP Eugenia Piza-López, líder da equipe de gênero do PNUD para a América Latina.


Estupro e feminicídio em alta

Segundo o relatório, América Latina e Caribe apresentam a maior taxa do mundo de violência sexual contra as mulheres fora de um relacionamento e a segunda maior por parte do parceiro atual ou anterior.

Três dos 10 países com as taxas mais altas de estupro de mulheres e meninas estão no Caribe, enquanto o feminicídio “está tomando uma magnitude e crueldade devastadora na América Central”, onde duas em cada três mulheres assassinadas morrem simplesmente por serem mulheres.

“Em alguns países se tornou uma crise severa. No Triângulo Norte (Honduras, El Salvador e Guatemala) e no México, o problema do feminicídio e da violência contra a mulher está representando níveis epidêmicos, muitas vezes relacionados ao crime organizado”, advertiu Piza-López.

Em um exemplo da violência de gênero na região, a representante da ONU Mulheres na Guatemala, a colombiana Adriana Ordóñez, alertou para a situação das mulheres no país centro-americano, onde proliferam os feminicídios e a gravidez na adolescência, a maior parte resultante de abuso sexual.

“Reduzir a brecha da violência é um dos maiores desafios na Guatemala, onde, em média, 88 mulheres e meninas foram assassinadas a cada mês até outubro deste ano”, disse Ordóñez, durante coletiva de imprensa na Cidade da Guatemala.

De acordo com dados oficiais, em 2016 foram registrados 1.161 feminicídios no país, número que superou as cifras de 2014 e 2015, respectivamente de 876 e 867 casos.


Leis insuficientes

O relatório regional do PNUD constata que 24 dos 33 países de América Latina e Caribe contam com leis contra a violência doméstica, mas somente nove deles sancionaram leis que tipificam uma variada gama de expressões de violência contra as mulheres.

Também destaca que 16 países tipificaram penalmente o feminicídio e alguns enquadraram na legislação os novos contextos de criminalidade, como narcotráfico, crime cibernético, expressões de violência política e ataques com ácido.

Mas “apesar dos valiosos avanços” dos governos para enfrentar a violência contra as mulheres, “este flagelo continua sendo uma ameaça” para os direitos humanos, a saúde pública e a segurança cidadã, indica o documento.

Para enfrentar o problema, a ONU recomenda reforçar as instituições, dar continuidade às políticas públicas que combatam a violência e empoderem as mulheres, além de fornecer mais recursos para executá-los.

Também pede a mudança dos “padrões culturais patriarcais” que, baseados em tradições e crenças religiosas, “estão fundados nas relações de desigualdade entre homens e mulheres”.

O relatório da ONU assinala que em todo o mundo 35% das mulheres foram vítimas de violência por parte de seu parceiro, ou de agressão sexual por pessoas diferentes de seu parceiro.

10 civilizações africanas esquecidas que foram mais surpreendentes que a egípcia

A África é o berço da humanidade. Foi lá que evoluiu o homem moderno, que depois se espalhou pelo globo. No entanto, algumas civilizações cheias de riqueza e cultura são pouco conhecidas para a maioria de nós





Por Natasha Romanzoti, Hypescience


A África é o berço da humanidade. Foi lá que evoluiu o homem moderno, que depois se espalhou pelo globo.

Centenas de pequenos reinos surgiram ao longo da história do continente, com alguns eventualmente se transformando em impérios poderosos. Estas vastas civilizações africanas cheias de riqueza e cultura são pouco conhecidas para a maioria de nós. Está na hora de mudar isso:



1. Civilização cartaginesa

Um assentamento fenício, a antiga cidade-estado de Cartago ficava localizada na atual Tunísia e cobria boa parte do Mediterrâneo. Sua colocação estratégica e abundância de comércio permitiram que fosse bastante rica.


A civilização cartaginesa era extremamente qualificada na elaboração de móveis, almofadas e colchões, e suas camas eram um luxo caro. Em um ponto da história, seus rivais romanos tentaram copiar seus designs sem sucesso.

Cartago também criou um intrincado sistema governamental, escreveu uma constituição e possuía uma extensa biblioteca. Infelizmente, a maioria de sua literatura foi destruída ou dada de presente aos reis da Numídia. Apenas um livro ainda existe – um manual sobre a técnica agrícola, traduzida para o grego.

Eventualmente, Cartago foi queimada e saqueada pela expansão do Império Romano. No entanto, a cidade-estado deixou uma marca indelével como um império comercial rico e uma força poderosa na África.


2. Império Zulu

A ascensão do Império Zulu não teria acontecido sem uma pulada de cerca. O início do reino foi estimulado por Shaka Zulu, filho ilegítimo do chefe Senzanganoka. Após ter evitado várias tentativas de assassinato e disputas familiares sangrentas, Shaka se tornou chefe dos Zulus.


Usando suas inovadoras táticas militares, Shaka deixou o império rico e famoso, além de torná-lo uma das civilizações africanas mais temidas durante o período colonial. Ele treinou seus guerreiros tão bem que acabou derrotando a invasão britânica.

Depois de um período de poder e violência, por volta de 1900, os Zulus foram absorvidos pela Colônia do Cabo. Hoje, partes do império formam o país moderno da África do Sul.






3. Reino de Punt

Provavelmente localizado na atual Somália, o Reino de Punt foi considerado a “Atlantis” da África. Ao contrário da maioria das civilizações africanas, as pessoas desta “terra dos deuses” eram descritas como tendo tez vermelha escura e cabelos longos, e seus cidadãos viviam em cabanas de junco suspensas sobre palafitas acima da água.

O comércio entre Egito e Punt era comum, incluindo a primeira troca documentada de flora, quando a rainha Hatshepsut negociou árvores durante sua famosa expedição a Punt. Vários tipos de produtos eram trocados com Punt, de incenso a marfim a anões.

Embora a localização exata de Punt ainda seja debatida, o reino foi descrito como sendo exuberante e verde. Marinheiros supostamente podiam alcançá-lo viajando através do Mar Vermelho ou navegando o Nilo em pequenos barcos à vela.

Muitas pessoas acreditam que Punt tinha uma enorme influência sobre a cultura egípcia, da literatura à religião. Apesar disso, alguns historiadores questionam se Punt sequer existiu.




4. Império Songai




O Império Songai ocupava milhares de quilômetros em grande parte da África Ocidental. Com duração de quase 800 anos, foi considerado um dos maiores impérios do mundo nos séculos 15 a 16.

Tal como acontecia com outras civilizações africanas, Songai derivava a maior parte de sua riqueza a partir da negociação com outros povos, assegurada por seu exército de 200.000 pessoas posicionadas ao longo de suas províncias.

Milhares de culturas estavam sob seu controle, mantidas juntas pela burocracia de um governo centralizado. Uma nova moeda também foi criada, o que permitiu que as diversas culturas se misturassem e unissem.

O tamanho deste império foi sua queda, com o seu enorme território se provando muito difícil de controlar. Songai passou por uma guerra civil e, lá pelo final do século 16, o império outrora poderoso se fraturou em pequenos reinos.



5. Reino de Cuche



Relativamente desconhecido fora da África, o Reino de Cuche ficava localizado no atual Sudão. Esta civilização era muito semelhante ao Egito e governava como os faraós. Eles também mumificavam seus mortos, construíram pirâmides como cemitérios e adoravam vários deuses.


No entanto, havia várias diferenças importantes entre as duas culturas. Ferro havia se tornado um grande recurso para os cuches, enquanto os egípcios ainda estavam descobrindo as maravilhas deste metal. As mulheres também desempenhavam um papel muito maior na sociedade Cuche – rainhas muitas vezes sucediam os reis. Na verdade, uma das maiores pirâmides do reino foi construído para honrar uma governante mulher.

Cuche era famoso por seus arqueiros, muitas vezes representados nas obras de arte. Teoriza-se que o reino tenha enfraquecido após ser invadido pelo povo de Axum e, em seguida, tomado por uma nova sociedade chamada de Grupo-X ou cultura Ballana.



6. Cultura Nok


Os primeiros vestígios dessa misteriosa civilização foram descobertos em 1928 por um grupo de mineiros de estanho nigerianos. Conforme os arqueólogos descobriram fragmentos de cerâmica, pinturas e ferramentas, ficaram chocados ao perceber quão avançada esta cultura previamente desconhecida era.

Durante sua existência, de 900 aC até 200 dC, a cultura Nok criou um complexo sistema judicial séculos antes dos modernos serem inventados. Usando várias classes diferentes de tribunais, eles tratavam de assuntos como roubo, assassinato, adultério e disputas familiares.

O povo Nok também foi o primeiro fabricante de estátuas de terracota em tamanho real. Suas obras representavam pessoas com cabeças longas, olhos amendoados e lábios separados.


Os Nok também eram avançados no manuseio de metais, forjando pequenas facas, pontas de lança e braceletes.

No ano 200, a população diminuiu rapidamente, sem motivo aparente. Fome, dependência excessiva de recursos e mudanças climáticas foram propostas como explicações para seu desaparecimento.


7. Império do Mali

O Império do Mali foi uma grande civilização africana que prosperou entre os séculos 13 e 16. Fundado por um homem chamado Sundiata Keita (também conhecido como Rei Leão), o império estava localizado na região do atual Oeste Africano.

Enquanto o Rei Leão foi um governante impressionante, o império floresceu mais sob o comando de Mansa Musa, que detém o título de homem mais rico da história. Sua fortuna era estimada em gritantes US$ 400 bilhões, um montante que envergonha até Bill Gates.

Musa criou Timbuktu, a capital do Mali, e principal centro de educação e cultura da África, permitindo que estudiosos de todo o continente aprendessem ali.

Como Benin, Mali foi bem-sucedida no comércio devido à sua localização junto ao rio Níger. No entanto, foi saqueado por invasores do Marrocos em 1593. Isso enfraqueceu o império, e Mali logo deixou de ser uma entidade política importante.




8. Império do Gana

Na Gana antiga, assentada sobre uma imensa mina de ouro, havia um reino tão rico que até mesmo seus cães usavam colares feitos de metal precioso.

Com planejamento estratégico, líderes poderosos e uma abundância de recursos naturais, o Império do Gana tinha grande influência. Negociava com europeus e norte-africanos, importando livros, tecidos e cavalos em troca de ouro e marfim. Comerciantes árabes muitas vezes passavam meses tentando chegar ao reino para fazer negócios.


Se alguém fosse acusado de violar a lei no Gana, essa pessoa era forçada a beber uma mistura acre de madeira e água. Se vomitasse a mistura, era considerada inocente. Caso contrário, era considerada culpada e punida pelo rei.

Apesar de impedir muitas invasões, o império eventualmente entrou em colapso em 1240. Isolado do comércio e enfraquecido por seus rivais, Gana foi absorvido pelo crescimento do Império do Mali.





9. Império do Benin

No que é hoje a Nigéria, o Império do Benin começou quando o povo Edo cortou árvores na floresta tropical do Oeste Africano. Por volta de 1400, o pequeno povoado se desenvolveu em um poderoso reino.

Com um gosto incomum para bronze nos seus palácios deslumbrantes, Benin também utilizava cobre em suas obras de arte, estátuas e placas que

descrevem cenas de batalha sangrentas. Quanto à negociação, Benin encontrou sua riqueza no comércio com reinos africanos do norte devido à sua localização próxima ao rio Níger. No extremo sul do império ficava o Oceano Atlântico, o que permitiu que seus navios trocassem mercadorias com outros povos, tais como pedras de coral, pimenta e pele de leopardo.

A civilização chegou ao fim quando os britânicos invadiram a região, tomaram os recursos de Benin e queimaram o império até o chão.





10. Império de Axum


Enquanto uma revolução cristã estava ocorrendo na Europa, um poderoso reino surgiu no continente africano. Na atual Etiópia, o Império de Axum se tornou um dos maiores mercados do nordeste da África, com grande força naval.

Axum dominou a costa do Mar Vermelho até o século VII. Além de influenciar outras superpotências na África, Europa e Ásia, este império criou o Ge’ez, única língua escrita com um conjunto de sinais utilizados para representar fonemas original da África.

O império tinha uma multidão de visitantes estrangeiros. Um escritor persa saudou Axum como “uma das quatro maiores potências do mundo”. Ainda assim, pouco se sabe sobre esta impressionante civilização africana.




A história homossexual da Bíblia que os fanáticos religiosos tentam esconder

Os evangélicos fundamentalistas que estão por trás de todas as batalhas pelo obscurantismo no Brasil usam a Bíblia a seu bel prazer. Há uma história emblemática que eles preferem ignorar, tentam esconder ou fingem desconhecer




Por Kiko Nogueira, DCM


Os evangélicos fundamentalistas que estão por trás (opa) de todas as batalhas pelo obscurantismo no Brasil usam a Bíblia a seu bel prazer.

A justificativa para a “cura gay”, por exemplo, é baseada em versículos como este do Levítico:

“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a mor­te.”

A Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, outro favorito da turma, ensina o seguinte: “Não errais: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem malakoi, nem arsenokoitai herdarão o reino de Deus”.

Os livros dos felicianos e malafaias traduzem essas palavras gregas como “efeminados e homossexuais”. Traduções mais recentes e criteriosas preferem “pervetores”, “pervertidos” ou “imorais”.

Paulo, que se chamava Saulo e era um devasso antes de se converter cristão, fazia uma referência à licenciosidade do Império Romano sob Nero — o qual, segundo a tradição, o decapitou.

Mas a história que os crentes preferem ignorar é a de Davi e Jônatas, presente em Samuel I e II.

Jônatas era filho do rei Saul de Israel e seu sucessor natural. Mas fez uma aliança com Davi, que acabou sendo escolhido para o trono, o que Jônatas aceitou de coração. “O que tu desejares, eu te farei”, declara.

Jônatas o amava como à sua própria alma”, diz a Bíblia. Numa cena, ele tira a roupa e se deita com o amado. “Beijaram-se um ao outro”.

É belíssimo — como, aliás, toda a saga de Davi, um homem cheio de contradições, capaz, por exemplo, de mandar um general para o front para poder ficar com a mulher dele, Betsabá.

No sonho da quadrilha crente, as páginas com o amor de Davi e Jônatas seriam queimadas — juntamente com os gays.

Jesus pregou: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A eles não interessam nem a verdade e nem a libertação, muito menos a de si mesmos.

(1SM 18:1-4) “E sucedeu que, acabando ele de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou, como à sua própria alma. E Saul naquele dia o tomou, e não lhe permitiu que voltasse para a casa de seu pai. E Jônatas e Davi fizeram aliança; porque Jônatas o amava como à sua própria alma. E Jônatas se despojou da capa que trazia sobre si, e a deu a Davi, como também as suas vestes, até a sua espada, e o seu arco, e o seu cinto.”

(1SM 20:3) “Então Davi tornou a jurar, e disse: Teu pai sabe muito bem que achei graça em teus olhos; por isso disse: Não saiba isto Jônatas, para que não se magoe. Mas, na verdade, como vive o Senhor, e como vive a tua alma, há apenas um passo entre mim e a morte. E disse Jônatas a Davi: O que disser a tua alma, eu te farei.”

(1SM 20:41) “E, indo-se o moço, levantou-se Davi do lado do sul, e lançou-se sobre o seu rosto em terra, e inclinou-se três vezes; e beijaram-se um ao outro, e choraram juntos, mas Davi chorou muito mais.”

(2SM 1:25-26) “Como caíram os poderosos, no meio da peleja! Jônatas nos teus altos foi morto. Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; quão amabilíssimo me eras! Mais maravilhoso me era o teu amor do que o amor das mulheres.”


110 anos de Umbanda, religião dos oprimidos

Em tempos de padres e pastores pop-star, uma religião fundada por negros e índios, sem estruturas de poder, não pode ser tolerada — pois mostra a todo instante que é possível viver o sagrado de outro modo


Por Fran Alavina, via Outras Palavras





Em tempos não de simples intolerância, mas de perseguição escancarada e fanática, já é por si só um ato político fazer memória de uma das religiões vítimas da perseguição cristã destes dias: a Umbanda. No último dia 15 de novembro, a Umbanda entrou nos preparativos para a comemoração de seus 110 anos. Fundada em 1908, no Rio de Janeiro, esta forma de vivência do sagrado traz em seu bojo dois gestos de caráter eminentemente político: a resistência e a oposição a toda forma de preconceito. Estes gestos políticos que marcaram a fundação desta religiosidade tipicamente brasileira não se perderam, nem se enfraqueceram, ao contrário, se caracterizam até hoje como uma de suas mais fortes determinações.

Com efeito, o ato fundacional da Umbanda não poderia se furtar de sua determinação política e do reconhecimento de uma dívida histórico-cultural. Diferentemente da história de outras denominações religiosas, no caso umbandista, o teológico e o político não se separam, tampouco o político é sublimado no teológico para se apresentar como uma pura questão de fé, como se nunca possuísse nenhuma determinação material. As determinações materiais da fé dão as diretrizes daquilo que depois ganhará realidade em um corpo dogmático de afirmações e prescrições práticas.

De fato, importa para a fundamentação de uma crença religiosa e estabelecimento de um novo sentido no campo do simbólico não apenas as discussões teológicas, mas também seu caráter ético-político. Isto é reconhecido até mesmo pelos mais conservadores das diversas versões do cristianismo, que quando postos fora de um debate estritamente teológico, utilizam a expressão vaga e imprecisa, por isso usada nos mais diferentes contextos: “valores cristãos da tradição ocidental”. Tão indeterminada e carente de um conteúdo seguro que se poderá ouvi-la da boca de um praticante da teologia da libertação, quanto de um membro do MBL. O que se quer dizer quando se fala destes valores cristãos da civilização ocidental?

À luz da própria história das mais diversas versões do cristianismo, esta expressão é no mínimo paradoxal, pois o que se enaltece no discurso torna-se farelo diante das práticas mais contraditórias com a letra e o espírito cristão. Práticas que retornam de tempos em tempos, como a nos dar provas de que o cristianismo nunca realizou um exame sério de suas contradições e das perversidades que pode engendrar, daí recair ciclicamente nestas, sobretudo quando pensa estar acuado, ou em crise interna de identidade.

Ora, o gesto primeiro que deu a origem a Umbanda tem sua gênese na não aceitação de um preconceito racial, e não simplesmente em uma questão religiosa. Saída de dentro do kardecismo, de onde traz a prática dos trabalhos mediúnicos e de ritos de incorporação, o desligamento com a doutrina de Kardec se deu em virtude de os espíritas não aceitarem o trabalho daquelas entidades que se identificavam e se identificam como caboclos (índios) e pretos-velhos(homens e mulheres negros que viveram em condição de escravidão).

Ali, se expressava um preconceito racial que não encontra qualquer relação de sustentação com princípio teológico. Tratava-se de colocar para fora daquela nova religião que chegava ao Brasil, aqueles que por sua identificação espiritual compartilhavam da condição de inferioridade social de negros e índios. Eram as determinações sociais direcionando práticas “sobrenaturais”. Identificando-se como tais, os caboclos e preto-velhos supostamente não possuiriam o “grau de evolução necessária”, nem intelectual, nem moral para estarem em um espaço simbólico que até hoje se autoproclama a mais racional das religiões: tanto que pretende ser a um só tempo religião, filosofia e ciência.

Este produto de última geração das religiões, porém, não se desapegou das suas condições materiais iniciais. Atendendo, dessa maneira, muitas vezes aos anseios de uma classe média que enxerga no som dos atabaques e nos rituais afrodescendentes uma forma exagerada de exotismo. A Umbanda seria então uma religiosidade que não se coadunaria com uma noção de civilidade herdada do colonizador e mantida pelo colonizado.

Isto se trata, com efeito, de uma generalização, portanto, não é uma descrição perfeita, contudo os traços etnocêntricos do espiritismo podem ser observados até hoje. O kardecismo brasileiro, mesmo com mais de um século entre nós, não consegue se associar a nenhuma prática ou tradição popular de maior alcance, ademais não encontramos negros entre seus maiores expoentes.

O que fizeram então aquelas entidades de pretos-velhos e caboclos? Resistiram ao preconceito racial disfarçado de discurso religioso fundando uma nova religião. Nesta nova religiosidade nascida de dentro do mundo da cultura popular impera a tradição oral, não há livros de revelações oficiais, nem versículos que sirvam de base para relações de mando e obediência. Diferenças de interpretação de um ou outro aspecto desta fé não conduzem à expulsão, ao silêncio obsequioso, ou à formação de tribunais. Aqui não há códigos de direito canônico, pois a justiça não se identifica com o legalismo de regras que estabelecem a superioridade dos executores e a inferioridade dos punidos. A Umbanda não é uma religião que se caracteriza por excomungados e malditos. Aqui se está longe do regime do vigiar e punir, uma vez que a noção judicial de pecado não aparece. Na Umbanda, o reconhecimento de que o sagrado pode se manifestar nas mais diversas expressões, ritos e práticas litúrgicas impede que se opere como se a religião fosse um tribunal de exceção.

A execração pública não faz parte de nossa liturgia mais visível. Não há catedrais colossais, nem templos de Salomão, pois a fé se realiza no corpo de cada praticante. É o reconhecimento do corpo em sua realidade mais imediata, como a mais forte presença sensível, mas também com todo sua debilidade, tal como é a carne de qualquer ser vivo. Nesta via, estamos a alguns passos de distância da tradição cristã que afirma que o corpo é “templo e morada do espírito santo”. Aqui, o corpo não é o lugar impuro que se santifica pela passagem de um hóspede digno: o espírito. Não há hóspede para o corpo, uma vez que ele não é uma morada vazia, nem um templo sem conteúdo. É por considerar o corpo um lugar vazio que as múltiplas versões do cristianismo, ao longo de suas trajetórias, tomaram para si o direito de arbitrar sobre os corpos dos outros, preenchendo aquele lugar que dizem estar “desocupado”.

Tal não ocorre na Umbanda. Nela, o corpo não é um lugar vazio, sua dignidade não é dada de fora. Sua dignidade reside nele mesmo, não está em um outro cujo lugar é o sobrenatural, mas na sua naturalidade. Aqui o corpo não está além de sua condição sensível, pois ir além disso é fazer do corpo algo que não é ele mesmo.

O corpo, desse modo, não se reduz ao incruento sacrífico do altar, nem é uma metáfora, aquela do corpo místico para expressar a organização da assembleia dos fiéis, nem é, portanto, uma realidade mistificada, que só será glorioso no pós-morte e com a ressureição. Na Umbanda, sua “glória” e seu valor se mostram tal como ele é agora: em toda sua debilidade e fortaleza. Não o corpo inerte, mas sim o corpo vivo que se movimenta, transpira, gesticula, que deseja e se sacia, pois é sua condição natural.

Também não é o corpo exemplar dos moralistas, o corpo bem vestido, coberto por longas saias, o corpo que traja ternos, que aparece engravatado e que inspira respeito não por aquilo que mostra, mas por aquilo que esconde. Talvez seja por isso que não se veja umbandistas, nem filhos de santo do candomblé a atacar outros corpos: com xingamentos, pedradas, ou os difamando publicamente, os perseguindo aonde quer que esses corpos se movimentem no fórum íntimo de sua cotidianidade. Confundindo assim a aparição pública com a privacidade mais íntima de todo indivíduo.


Aqueles cristãos, e assim devem ser chamados, pois se intitulam como tais, que atacaram fisicamente uma filósofa, o fizeram na medida em que não reconhecem a dignidade do corpo do outro. Uma voz conservadora bradava dos porões do mundo virtual se referindo constantemente a Butler como “aquele ser esquisito”. Sendo o corpo que, segundo eles, não hospeda o espírito, é o corpo indigno, o corpo mais que residual, mais que indesejável, o corpo dejeto que, por isso, deve ser queimado. Como demostraram ao acender uma fogueira para a pensadora. Há de se estudar muito ainda para que se possa compreender quão profundo e violento é o fetiche dos cristãos para com os seus próprios corpos e os corpos dos outros. Ironia que a fúria deles se dirija a alguém que pensa as determinações sexuais e de gênero para além dos condicionamentos biológicos do corpo.

Talvez por estes e outros elementos que se opõem diretamente à estrutura de mando e submissão de uma forma da fé que se faz em um país de tradição autoritária e desigual, que a Umbanda e o Candomblésejam ameaças constantes ao poder desses sistemas de dominação. A demonização das religiões de matriz afrodescendente apenas empresta aparente caráter teológico a um desejo de mando e submissão. Já não estamos mais diante somente da intolerância, mas de vontade de aniquilação do outro, não apenas simbolicamente, mas fisicamente. Há de se perguntar: que cristianismo é este capaz de inverter seus próprios fundamentos? É isto o cristianismo?

Daí, as constantes invasões aos terreiros do povo de santo e as costumeiras caçadas judiciais, porque o judiciário de um país desigual, comprometido até o pescoço com está desigualdade é incapaz de tratar equanimemente as religiões. Veja-se o caso recente da questão da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas arbitrado pelo STF. O mito do país sincrético e da convivência harmoniosa das religiões caiu junto com outros mitos seculares como o mito da não violência e da democracia racial.

Em direção aos seus 110 anos, estamos em um momento em que mais uma vez a Umbanda é chamada a resistir como no seu nascimento, mas desta vez contra a histeria de denominações religiosas que se dizem verdadeiras e acreditam possuir o monopólio do sagrado. São elas que avançam contra nós em uma louca cavalgada da crença alienada de que fazem o que deve ser feito: difamar, perseguir e aniquilar. De fato, não adianta quase nada por parte dos que se autodenominam “cristãos” afirmar que tais atos são feitos por uma parcela pequena e radical de um redil majoritário. A correta e sincera indagação seria perguntar: como é possível que uma certa forma de religiosidade possibilite este tipo de violência? Seria apenas um problema de ordem pessoal, dos indivíduos que realizam tais atos, ou seria um problema maior, da própria estrutura religiosa?

Ao que parece, relegar a culpa aos indivíduos é uma forma eficaz de esconder o problema e não pôr em questão a própria forma de vivência religiosa: seja por comodismo, por submissão, ou mesmo para camuflar a vontade de poder e o desejo violento de não tolerar o diferente. Em um país autoritário como o Brasil, o discurso da religião verdadeira sempre ganha força, pois ela será aquela que possuir maior poder. A submissão e a violência se disfarçam de zelo, de amor divino e o poderio econômico é ostentado como prova de benção. Em tempos de padres pop-star e pastores que possuem mais botox que fé, uma religião fundada por negros e índios e literalmente com pé no chão, sem estruturas de poder que imitam impérios, ou mimetizam a perversidade das organizações empresarias, não pode ser tolerada, pois ela mostra a todo instante que é possível viver o sagrado de um modo diferente.

Por isso, é preciso não baixar a cabeça e gritar pela dignidade do sagrado que não está apenas nas religiões etnocêntricas. Não perecerá a força da resistência dos caboclos e preto-velhos que romperam preconceitos estabelecendo um novo modo de compreensão do sagrado e novos sentidos simbólicos. Esta força e esta fé agora são mais que necessárias.

O valor da Pedagogia em 5 filmes

5 filmes da Netflix retratam o valor da Pedagogia

Filmes mostram que, quando comprometida com a formação do sujeito, a Pedagogia tem alto poder de transformação


Por ANA LUIZA BASILIO via  Carta Educacao




Educar é assumir um compromisso com a formação de um sujeito em sua integralidade, é trabalhar com a dimensão intelectual, mas também com a física, emocional, social e cultural. É considerar o estudante como o centro do processo de aprendizagem e partilhar a construção do conhecimento.

O Carta Educação selecionou cinco filmes disponíveis na Netflix para mostrar que, quando em diálogo com a realidade e comprometida com os estudantes, a Pedagogia tem um alto poder de transformação.


1. Preciosa – Uma história de Esperança (2009)

A jovem Claireece “Preciosa” Jones tem uma vida marcada por abusos. Grávida de seu próprio pai pela segunda vez, humilhada pela mãe, sem saber ler nem escrever, a jovem vê possibilidades de mudança ao ser transferida para uma escola alternativa e conhecer a professora Rain, que a ajuda no resgate de sua identidade e autoestima.




2. Escritores da Liberdade (2007)

Baseado em uma história real, o filme conta a história da novata professora Erin Grunwell, que chega a uma escola marcada por separatismos e preconceitos raciais. Obstinada a mudar a realidade da escola e de seus estudantes, a docente parte das histórias dos jovens para promover transformação.





3. A Voz do Coração (2003)

O professor Clément Mathieu assume a missão de ensinar música a crianças de um pensionato. Contrariando os métodos rígidos utilizados para conter as crianças indisciplinadas, o professor estrutura um coral e modifica as relações existentes.





4. O Sorriso de Monalisa (2003)

A recém-formada Katherine Watson é contratada para lecionar História da Arte na Wellesley College, uma escola só para mulheres. Além de lecionar, a educadora começa a confrontar os valores conservadores da instituição e a mostrar às suas alunas, de famílias tradicionais, que elas poderiam querer mais do que se casar no futuro.





5. O Aluno (2010)

O filme reconta a história de Kimani Maruge Ng’ang’a, um queniano que foi preso e torturado por lutar pela liberdade de seu país. Aos 84 anos, quando soube de um programa governamental de escolas para todos, Maruge se candidata a uma escola primária que atende crianças de seis anos de idade. Sua entrada acontece graças ao apoio de uma das professoras e ele também se torna um grande educador.


Mais de 850 mil mulheres são infectadas por HIV todos os anos no mundo, diz UNAIDS

Dados compilados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) mostram que cerca de 870 mil mulheres são infectadas pelo HIV todos os anos no mundo, e só metade tem acesso ao tratamento capaz de salvar vidas. Isso coloca a AIDS como a maior causa de mortes entre mulheres em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) globalmente.


“Quando jovens mulheres são empoderadas no exercício de seus direitos, a prevalência do HIV cai, há menos registros de gravidez indesejada, menos casos de mortes maternas e menos evasão escolar, além de maior adesão do mercado de trabalho”, afirmou o relatório do UNAIDS “Direito à Saúde”, divulgado na segunda-feira (20).


Mulheres que vivem com HIV enfrentam estigma e discriminação dentro de suas próprias famílias, comunidades, locais de trabalho e serviços de saúde. Foto: EBC



Dados compilados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) mostram que cerca de 870 mil mulheres são infectadas por HIV todos os anos no mundo, e só metade tem acesso ao tratamento capaz de salvar vidas. Isso coloca a AIDS como a maior causa de mortes entre mulheres em idade reprodutiva (de 15 a 49 anos) globalmente.

Os números foram divulgados para a ocasião do Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, lembrado anualmente em 25 de novembro, e do início dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

A iniciativa, liderada pela ONU Mulheres, uma das instituições copatrocinadoras do UNAIDS, tem como objetivo chamar a atenção para a urgência da eliminação da violência de gênero e mobilizar a sociedade por meio de mensagens e iniciativas de impacto.

O UNAIDS lembra que mulheres que vivem com HIV enfrentam estigma e discriminação dentro de suas próprias famílias, comunidades, locais de trabalho e serviços de saúde. Estes últimos, incluindo os de saúde sexual e reprodutiva, ainda não estão disponíveis a todas as meninas e mulheres. Muitas ainda não são capazes de tomar decisões sobre sua própria saúde.

A violência contra mulheres e meninas permanece como uma mancha no tecido social globalmente. Todos os anos, milhões de meninas são forçadas ao casamento antes de estarem prontas ou de dar seu consentimento.

Quando essas meninas e mulheres não podem usufruir de sistemas sociais, educacionais e de saúde, elas não apenas têm seus direitos humanos negados, incluindo o direito à saúde, mas também tem seu futuro usurpado e desprovido de oportunidades de florescer e viver em plenitude, salientou o programa da ONU.

“Quando jovens mulheres são empoderadas no exercício de seus direitos, a prevalência do HIV cai, há menos registros de gravidez indesejada, menos casos de mortes maternas e menos evasão escolar, além de maior adesão do mercado de trabalho. Quando mulheres jovens têm acesso a educação, os resultados relacionados à saúde melhoram consideravelmente”, afirmou o relatório do UNAIDS “Direito à Saúde”, divulgado na segunda-feira (20).

“Meninas e mulheres estão no centro da resposta à AIDS. Fatores como idade, etnia, desigualdades de gênero, deficiência, orientação sexual, profissão e posição socioeconômica são determinantes na capacidade que meninas e mulheres têm de se proteger do HIV”, disse o documento.

A violência ou o medo da violência representam um grande obstáculo para o acesso de adolescentes e mulheres ao sexo seguro, as ações de prevenção, testagem e tratamento, bem como aos serviços de saúde sexual e reprodutiva.

Segundo o relatório “Acabando com a AIDS”, 64,3% das mulheres jovens (entre 15 e 24 anos) reportaram o uso de preservativo na primeira relação sexual, entretanto, apenas 17,9% das mulheres relataram o uso do preservativo nos últimos 12 meses com parceiro fixo.

Os números mostram que mesmo as mulheres que não sofrem violência física estão suscetíveis ao vírus quando coagidas por seus parceiros a terem relações sexuais sem camisinha.


História de vida

Para Silvia Almeida, consultora do UNAIDS Brasil, a submissão feminina ainda está enraizada em nossa sociedade.

“Na nossa cultura as mulheres sempre exerceram um papel de submissão econômica que se reflete na autoestima e na educação sexual. Precisamos desconstruir a ideia machista de dominação masculina e interiorizar a importância do cuidado com o próprio corpo através de uma educação sexual abrangente desde cedo.”

Silvia descobriu que tinha HIV em 1994, após ter contraído o vírus do marido — seu primeiro namorado, com quem foi casada durante 15 anos, e pai de seus dois filhos. Ele faleceu dois anos depois do diagnóstico.

“As mudanças acontecem lentamente na nossa sociedade, por ,isso precisamos bater na mesma tecla constantemente. Uma mulher que anda com preservativo é vista como mal-intencionada, quando, na verdade, ela tem boas intenções para com seu corpo e sua própria saúde.”

“Ainda hoje a camisinha é vista apenas como um método contraceptivo. E a desinformação é ainda maior em regiões mais remotas do país”, salientou.


16 dias de Ativismo

O mote deste ano da campanha 16 Dias de Ativismo é ‘não deixar ninguém para trás’, alcançando as mulheres mais vulneráveis primeiro. O movimento está sendo construído por meio de ações que colocam em destaque implicações e consequências da violência contra mulheres e meninas nos grupos mais marginalizados.

“Como comunidade global, podemos acabar com a violência contra mulheres e meninas, transformar instituições e unir os esforços para erradicar a discriminação, restaurar os direitos humanos e a dignidade e não deixar ninguém para trás”, declarou Phumzile Mlambo-Ngcuka, secretária-adjunta da ONU e diretora-executiva da ONU Mulheres.



A violência contra as mulheres no mundo em quatro mapas

A Hungria é o único país da UE que não pune o assédio sexual. A Rússia descriminalizou a violência de gênero. Tunísia, Jordânia e Líbano proibiram o perdão aos estupradores que se casavam com suas vítimas.









Por ELISA CASTILLO via El pais


Todo 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, serve para fazer um balanço e analisar os avanços (e retrocessos) nessa questão. Mas, sem dúvida, 2017 será lembrado por ser o ano em que muitas mulheres se atreveram a denunciar, como nunca antes, os casos de assédio sexual. Antes muitas delas mantinham silêncio – e o assédio era inclusive percebido como algo inevitável. Há indícios de que isso esteja mudando.


De forma geral, as regiões do planeta que menos garantem os direitos das mulheres continuam sendo a África Subsaariana, a Ásia Meridional e o Oriente Médio. Mas Tunísia, Jordânia e Líbano se destacam por seus avanços. Na Europa, o continente que mais pune a violência de gênero, a Rússia se sobressai como o país menos seguro para elas. Na União Europeia (UE), a Bulgária se destaca por não ter leis que criminalizem o estupro dentro do casamento e a Hungria, por não punir o assédio sexual. Além dos avanços pontuais por países, este ano presenciou uma luta global das mulheres: a campanha #MeToo. E 2017 foi também o ano do caso Harvey Weinstein, a partir do qual centenas de mulheres revelaram um enorme número de casos de assédio sexual cometidos por homens com poder em diversos âmbitos e esferas. No entanto, a maioria das mulheres que denunciam está nos Estados Unidos e na Europa, onde a legislação é mais garantista. E demoraram a fazê-lo. Os especialistas afirmam que somente uma pequena parte das vítimas denuncia. Na UE, uma pesquisa realizada em 2014 pela Agência dos Direitos Fundamentais indicou que entre 45% e 55% das mulheres havia sofrido assédio sexual desde os 15 anos, algo que não se reflete no número de denúncias. As mulheres no Ocidente começam a apontar seus acossadores, mas no resto do mundo ainda há um longo caminho pela frente, sobretudo na África e no Oriente Médio.

Atualmente, dois terços dos países (140) punem a violência doméstica. Porém, mais de 40 não o fazem. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime(UNODC) calcula que, no mundo todo, 50% das mulheres assassinadas são vítimas dos cônjuges ou de homens da família. Em sua maioria, os países que não contam com leis que punem a violência contra a mulher no âmbito familiar estão na África Subsaariana – menos da metade dos países tem legislação sobre o tema –, Oriente Médio e Norte da África (um em cada quatro), segundo o Banco Mundial.


Este ano, dois casos se destacam especialmente: o russo e o tunisiano, ainda que por motivos opostos. A Rússia, um país onde uma mulher é assassinada a cada 40 minutos, descriminalizou a violência de gênero no início deste ano, reduzindo a pena a uma mera sanção econômica. Já o Parlamento da Tunísia, ao contrário, adotou neste verão a lei contra a violência de gênero mais ambiciosa do mundo árabe, que pune todos os tipos de agressões sexistas e o assédio sexual.


Casamento Infantil



Cerca de 24% das adolescentes e meninas (750 milhões) no mundo inteiro se casam antes dos 18 anos, em comparação com 30% nos anos noventa. O casamento infantil não apenas acaba com os projetos de educação e de vida de milhões de mulheres menores de idade, mas também aumenta a chance de que sofram violência por parte de seus maridos, segundo a ONU Mulheres.

Em termos relativos, a África Central e Meridional é a região onde mais prevalece essa prática: 40% das jovens se casam antes dos 18 anos e 14% antes dos 15, segundo dados deste ano do Unicef. Em termos absolutos, contudo, os super populosos Bangladesh (18 milhões) e Índia (26 milhões) lideram o ranking dos casamentos de meninas e mulheres menores de idade, segundo a ONG Girls Not Brides.

Em muitos casos, a lei pouco adianta. Embora a imensa maioria dos países determina que os 18 anos são a idade legal para casar, a proporção de meninas-esposas – inclusive antes dos 15 anos – é muito alta: em Cabo Verde e no Burundi, por exemplo, ronda os 30%. Os países africanos lideram o ranking, mas os casamentos antes dos 15 anos também acontecem na Ásia Meridional e na América Latina, apesar da proibição da lei. Camboja (28%), Colômbia (17%) e Costa Rica (14%) são alguns exemplos.


No mundo todo, ainda há 34 países que não julgam os estupradores se estes forem maridos das vítimas ou se casarem posteriormente com elas. Ainda assim, neste ano destacam-se os avanços de três nações árabes: Tunísia, Jordânia e Líbano acabaram com as leis que perdoavam os estupradores que casassem com suas vítimas. Em muitos outros países, especialmente na África Subsaariana e na Ásia, o estupro não é punido se ocorrer dentro do casamento, o que deixa as mulheres desamparadas se o estuprador for o marido. Destaca-se o caso da Índia, onde, apesar da brecha jurídica, a Suprema Corte resolveu que o ato sexual será de fato considerado um estupro se ocorrer dentro do casamento, mas somente se a esposa for menor. Dentro da UE, a Bulgária é o único país que não reconhece as agressões sexuais cometidas pelo marido.

Breve história crítica dos feminismos no Brasil

Excluídas da história oficial, as mulheres fazem do ato de contar a própria trajetória uma forma de resistência. Neste ensaio, publicado na...