13 livros para ensinar direitos humanos

13 livros para ensinar direitos humanos

1 - Malala - A menina que queria ir para a escola


No primeiro livro-reportagem destinado ao público infantil, a jornalista Adriana Carranca relata às crianças a história da adolescente paquistanesa Malala Yousafzai, baleada por membros do Talibã aos catorze anos por defender a educação feminina. Na obra, a repórter traz suas percepções sobre o vale do Swat, a história da região e a definição dos termos mais importantes para entender a vida desta menina tão corajosa.

2 - A esperança é uma menina que vende frutas.


Viajando de trem para uma cidade grande, uma garota sobe em seu beliche, silenciosa mas com olhos que parecem dizer muitas coisas, e permanece ali, sem comida e companhia. É com essa recordação que Amrita Das inicia este livro, resultado de uma oficina de texto e ilustração que cursou em Chennai, na Índia. Como uma das mais importantes representantes da arte folclórica indiana chamada Mithila, a artista aproveita este espaço para falar sobre as dificuldades de uma infância pobre, a vida das mulheres na Índia, a luta pela liberdade em uma sociedade patriarcal, entre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, dizem respeito a todos nós. Através de belas palavras e imagens, ela apresenta a sua história e dissemina um pouco da esperança que parece acompanhar sua arte.

3 - O que é a Liberdade?


Para muitos, o passarinho é um símbolo da liberdade. Mas será que ele se sente livre mesmo? E afinal, o que é a liberdade? Foi pensando nesse conceito tão difícil de compreender que Renata Bueno escreveu este livro recheado de diálogos curiosos entre um passarinho e personagens como um lápis, um camaleão, um espelho, um mágico... As respostas poéticas de cada um deles sobre o que é a tal da liberdade vão fazer tanto o passarinho quanto os leitores perceberem que essa sensação pode ser diferente para cada um de nós — e nem por isso menos autêntica.

4 - Flicts


Em Flicts, Ziraldo conta a história de um mundo que é feito de cores, mas nenhuma é Flicts. Uma cor rara, frágil, triste, que procurou em vão por um amigo. Abandonada, Flicts olhou para longe, para o alto, e subiu, e teve que sumir, para finalmente encontrar-se.

5 - Acompanhando meu pincel


Ao percorrer as delicadas e vibrantes ilustrações nas páginas deste livro, o leitor fica conhecendo a história de como a sua autora, a indiana Dulari Devi, se tornou uma artista. Nascida em uma família pobre, de tradição pescadora, ela precisou trabalhar na infância, ajudando a mãe na plantação de arroz, cuidando dos irmãos mais novos em casa, fazendo trabalhos domésticos para os vizinhos. O que mais gostava de fazer, no entanto, era parar no caminho para ver as outras crianças brincarem.

6 - A diaba e sua filha


Todos os dias, ao anoitecer, uma diaba de pele escura, olhos brilhantes e roupas muito limpas sai pelas ruas da cidade, batendo de porta em porta, em busca de sua filha perdida. Prestes a ajudá-la, as pessoas reparam que ela tem cascos negros e delicados no lugar dos pés e imediatamente a expulsam de suas casas, apagando as luzes até que se afaste.

Ao narrar esse conto de mistério, antes uma alegoria sobre nossos próprios medos e preconceitos, a autora coloca bem e mal, humanidade e demônios, nós e os outros na mesma página, nos desafiando a buscar qualquer traço de humanidade dentro de nós mesmos.

7 - A Bela Desadormecida


Quando Belinha nasceu, seus pais deram uma grande festa e chamaram todo o mundo, menos a bruxa. Mas ela compareceu mesmo sem convite e levou como presente uma maldição: ao completar catorze anos, Belinha seria picada no dedo e, nesse instante, ela e todos os que estivessem por perto dormiriam um século. Os pais de Bela passaram catorze anos evitando que a filha se aproximasse de objetos pontudos ou cortantes. Mas o que aconteceu quando chegou o dia tão temido? É para esse momento que converge toda a emoção da história. O desenlace, como se verá, é adequado à época em que Belinha vive: ela é uma menina da metrópole, mora num apartamento e gosta de rock. As ilustrações, que têm um colorido pouco habitual nos livros infantis, colaboram para que nada seja adocicado nessa Belinha que desadormece, ainda que nela se espelhe a doçura dos contos de fada.

8 - A História de Júlia - E sua sombra de menino


Os pais de Júlia a criticam muito, sempre dizendo que ela se parece com um menino, no jeito, nas rouaps etc. Numa manhã, a garota percebe que sua sombra adquire o formato de um garoto, repetindo todos os seus gestos. Júlia se sente triste e acaba questionando sua própria identidade.

9 - É tudo família!


Davi tem um três-quartos-de-pai que ele adora. Carla e Maurício têm duas mães e dois pais. Carolina está muito triste e não quer ter outra mãe. Paula ganha duas festas por ano: a de aniversário e a de dia da chegada. O pai de Maurício chama-o de pituquinho. Lucinha tem a voz igualzinha à da mãe. Porém, todos têm algo em comum: pertencem a uma família, e toda família é única!

10 - O nascimento de Celestine


O nascimento de Celestine ocupa um lugar especial na obra da artista belga Gabrielle Vincent (1928-2000), criadora da série de álbuns ilustrados Ernest e Celestine, que conta com admiradores em todo o mundo - e já inspirou um longa-metragem de animação de mesmo nome, finalista do Oscar 2014.

Neste livro de imagens, com delicadas ilustrações a pincel e tinta sépia, a autora narra a história de como Ernest, um urso solitário e de bom coração, encontrou a ratinha Celestine - e de como ambos se tornaram companheiros inseparáveis. Um clássico sensível e comovente, que praticamente dispensa as palavras, e toca direto o coração do leitor.

11 - O mundo no black power de Tay'o


Tayó é uma princesinha que chega em forma de espelho para que outras princesinhas se mirem, se reconheçam e cresçam, cumprindo a única missão que nos foi dada, ao virmos viver neste planeta: a de sermos felizes.

12 - Um outro país para Azzi


A partir do olhar da menina Azzi, este livro retrata uma família do Oriente Médio, que se vê obrigada a fugir quando a guerra começa a afetar sua rotina. “Às vezes, o barulho das metralhadoras nos helicópteros era tão alto que as galinhas ficavam assustadas e paravam de botar ovos”, conta a protagonista, nessa narrativa ricamente ilustrada, revelando sua perspectiva da aproximação do conflito.

13 - Crianças como você


Celina, do Brasil, Ji-Koo, da Coréia do Sul, Houda, do Marrocos, Meena, da Índa, Esta, da Tanzânia... Crianças de verdade falam e escrevem sobre sua vida e seu jeito de ser. Surpreendente e emocionante, este livro é um marco. Ele faz uma viagem pelas diferentes culturas do mundo e mostra o cotidiano das crianças nos mais variados países. Editado em associação com o Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância

5 coisas que você deve saber antes de dizer que 'bandido bom é bandido morto'

Via - Brasil Post

Antes que você faça essa careta do Jair Bolsonaro para os Direitos Humanos ou solte os clássicos jargões "defensor de bandido", "esquerdopata", "está com pena leva para casa", pare três minutos porque separamos cinco argumentos que você precisa ler antes de repetir o mantra "bandido bom é bandido morto".
Bolsonaro debocha de quem defende os direitos humanos
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1 - Direitos Humanos NÃO são coisa da esquerda
Não foi o PT, PSOL - ou qualquer partido de esquerda do mundo - que inventou os Direitos Humanos. Surpreso? Pois é. Os Direitos Humanos foram criados pela Organização das Nações Unidas (ONU), lá em 1948, no período após a Segunda Guerra Mundial. Na época, os especialistas queriam criar um ambiente de igualdade entre todos os seres humanos e garantir que - mais uma vez - TODOS (homem, mulher, hetero, gay, negro ou branco) tivessem acesso aos direitos básicos como saúde e educação.
"No pós guerra, a situação das pessoas era crítica. A Declaração surgiu visando o todo e é exatamente a dificuldade que a gente enfrenta hoje em dia: olhar para o próximo e não só para si mesmo", defende a jurista Gabriela Ferraz. "Não são direitos para apenas uma classe, categoria, pessoa ou raça, mas sim garantias para todo e qualquer ser humano".
2 - Direitos Humanos NÃO servem para defender bandido
A Justiça brasileira é historicamente marcada por uma distribuição seletiva de punição. O Brasil é atualmente responsável por cerca de 10% de todos os homicídios que acontecem no mundo, segundo dados do Atlas da Violência 2016, elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Mas questione: qual a porcentagem desses casos que resultam em processos criminais? Menos de 8% do total. É um fato: o Brasil prende muito. E prende muito mal.
Somos o quarto país em população carcerária, atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Quando sai da cadeia, pelo menos um quarto dos presos volta a praticar crimes e retorna às prisões superlotadas. É um ciclo sem fim. Crime, impunidade, prisão e reincidência. Some a isso celas superlotadas, condições precárias de higiene, revistas vexatórias para familiares e casos de torturas diários.
Não é o "pessoal dos Direitos Humanos" quem diz. A própria ONU atesta a situação "cruel" nas prisões brasileiras. O relator especial da organização no Brasil Juan E. Mendéz diz que os métodos mais frequentes são "chutes, tapas, sufocamento, choques elétricos, uso de sprays de pimenta, balas de borracha, além de abuso verbal e ameaça".
"Aceitar o Estado de exceção e a barbárie significa que todos perdemos: perde o sistema de Justiça, que não dá conta, perde a polícia que está em guerra contra a sociedade, perde o chamado 'cidadão de bem', brutalizado pelo medo, perde a sociedade, que admite e alimenta a vingança em vez da justiça. Perdemos a nossa própria humanidade", afirma Atila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil.
3 - Quem é a favor dos Direitos Humanos NÃO quer ver o criminoso livre
Justiça não pode ser sinônimo de vingança. O que os Direitos Humanos defendem é que o criminoso tenha um tratamento justo, que os presídios não sejam superlotados e que todos cumpram suas penas sem serem torturados. Está lá no artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos: "Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante."
A Constituição Brasileira também é clara e garante que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (Art. 5º, III) e que “ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente” (Art. 5º, LIII) e assegura “aos presos o respeito à integridade física e moral” (Art. 5º, XLIX).
Em um segundo plano, para evitar prisões, as diversas convenções defendem uma mudança estrutural na educação e em oportunidades profissionais, para que menos pessoas recorram à criminalidade.
"Do mesmo jeito que o Cunha pode responder por seus crimes e ter um tratamento digno, também defendemos que o pobre e favelado tenha o mesmo direito e tratamento. O problema, atualmente, é que isso não acontece", critica Ferraz.
4 - Policiais também fazem parte dos Direitos Humanos
O problema é que essa ideia não tem sido executada. Atualmente, uma parte significativa das violações dos direitos ocorre nas ações das polícias brasileiras, que são umas das mais mortíferas em todo o mundo.
Em 2015, a cada dia, nove pessoas foram mortas pela polícia, resultando em mais de 3.345 mil vítimas em todo o Brasil. Foi um crescimento superior a 6,3% em relação a 2014.
No mesmo período, foram mortos 398 policiais - ao menos um por dia. Este número significa uma redução de 2,5% em relação a 2013. No Rio de Janeiro, a Comissão de Direitos Humanos da Alerj inclusive atende famílias de policiais mortos, com apoio tanto jurídico quanto psicológico, assim como a família de qualquer outra vítima de violência.
"Nenhuma das mortes, seja de policiais ou de civis, é mais importante que a outra. Todas devem ser lamentadas. Se a gente está falando de todos, a gente não fala de ninguém específico, apenas de um indivíduo. Os Direitos Humanos não são egoístas", explica a jurista.
5 - Não existe o "pessoal dos Direitos Humanos"
Quem ousou um dia defender alguém, independentemente do crime que tenha sido praticado, já foi chamado de esquerdopata, vagabundo, defensor de bandido... (siga com a lista mentalmente)
Mas adivinhe só: eles não existem. O "pessoal dos Direitos Humanos" só defende uma coisa que em tese todo mundo diz que faz: o amor ao próximo. Não é a ONU ou nenhum organização que representa o Direitos Humanos. O que resume ele é você e sua empatia em defender os direitos sociais.
O "pessoal dos direitos humanos", na verdade, tenta apenas garantir o acesso igualitário aos direitos previstos na nossa constituição para você e todos nós. Ele ou ela não solta o criminoso, mas apenas garante que ninguém seja torturado ou espancado. O "pessoal" não quer levar ninguém pra casa por pena, mas sim fazer com que ela tenha acesso à educação e possa ficar longe da criminalidade.

Classe média: o fetiche do igual

Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades



Por Maria Bitarello - Via Outras Palavras
Há uns anos ouvi um podcast de rádio americana, não me lembro mais qual, em que o entrevistado daquele dia dizia que o fator determinante da pobreza – econômica, não de espírito – é a possibilidade de escolha. O pobre, dizia o entrevistado que também o era, muito mais do que carecer de coisas, pertences, bens, é privado de escolhas, de alternativas. E, salvo as exceções que sempre existem, a vida lhe impõe um caminho, muitas vezes sem bifurcações no percurso. O que o dinheiro compra, portanto, segundo o tal entrevistado, são escolhas. Fiquei pensando sobre isso muito tempo. Claro que se trata de uma dentre tantas formas possíveis de interpretação e que, de certo, é limitada. Mas vamos seguir nessa via, limitada que seja. Porque acho que ela traz insights.
De acordo com esse raciocínio de pobreza, por menor que possa ser minha identificação com essa classe amorfa chamada de média, de fato, é dela que eu vim. Eu cresci num lar de classe média. Tive oportunidades de escolhas. Muitas. Como a de ter uma infância e crescer na hora em que estava pronta pra crescer; a de estudar, o que e onde fazê-lo; as de viajar, trabalhar, aprender línguas, música, esportes, conhecer culturas diferentes, ser exposta à leitura, às artes; a de votar; a de não virar, cedo demais, nem esposa nem mãe; a de me relacionar com quem meu coração eleger; a de mudar de ideia, voltar atrás, andar pra frente, jogar tudo pro alto e começar de novo; a de viver da forma que é verdadeira pra mim. E isso é ouro. Alguns diriam que não tem preço, mas se isso fosse verdade, todos teriam um pouquinho pra si. O que sabemos não ser o caso.
As escolhas às quais tive acesso não estão disponíveis a todos e me foram concedidas, em grandíssima medida, devido à classe social à qual pertenço. Eu as tive porque outra pessoa não as teve. É uma lei básica e pervesa do capitalismo. Ao mesmo tempo, a classe média não é só uma fatia social; é uma cultura também. E uma das características constitutivas dessa classe cultural é o medo. A classe média é apavorada. Tem medo de perder suas regalias disfarçadas de segurança e estabilidade. Ela paralisa sua vida em função desse medo. Segrega. Empurra o diferente pra longe. Vota mal. Não quer pretos nas escolas dos filhos brancos. Nem a boca no fim da rua. Tem medo do flanelinha que cuida dos carros. Da puta. De sair do carro, de andar na rua. Acha que a riqueza máxima será, um dia, se separar do convívio com os pobres.
É uma cultura pobre de espírito. Chata. A ela pertencem a moral e os bons costumes. Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela, na classe média, que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades. Movida pelo pavor, a classe média é capaz de qualquer coisa pra manter erguidas as barras que a aprisionam dentro do apartamento, enjaulada; dentro do carro, atrás de vidros blindados; dentro do bairro, onde todos são iguais. A personagem infantil de Pessoas Sublimes, peça que vi há umas semanas n’Os Satyros, em São Paulo, não sai de casa porque lá fora é muito perigoso. E já viu o que faz um bicho em perigo, acuado? Ele morde. Ele ataca.
Essa noção da classe média apavorada não é minha; tomei-a emprestada do documentário A Opinião Pública, do Arnaldo Jabor, lançado em 1967. Vale a pena assistir. Prometo que não tem nada a ver com o Jabor da Globo. É um registro das mudanças sociais pelas quais o Brasil passava na década de 1960. Uma época semelhante à de agora, quando um momento de abertura foi nocauteado por uma tenebrosa onda conservadora. Esse “medo” do qual fala Jabor nasce do que Marcia Tiburi chama de fetiche do igual, outra expressão que tomo emprestada – dessa vez do último romance dela, Uma fuga perfeita é sem volta, que estou acabando de ler. Os adeptos desse fetiche “amam o igual porque, na vida, só o que querem ver é espelho. O espelho que certifica que existem. Onde não há espelho, as pessoas põem ódio”.
O ódio. A força de uma classe média apavorada movida por ele, quando nas mãos da pessoa errada, pode ser monumental. A massa de manobra em que se transforma pode varrer uma sociedade, pode matar. E uma classe média assustada é tudo o que a direita mais aprecia e melhor sabe usar. Ela vai instigar ainda mais esse ódio que vem do medo, que por sua vez vem da não compreensão do diferente. Se a classe média brasileira não for sacudida de seu torpor, temos exemplos históricos palpáveis que mostram para onde esse discurso pode descambar. E a memória precisa ser exercitada, sempre, pra que a história não se repita.
Evitar repetições é o que um paciente encontra na análise. É o que se alcança com uma epifania. Com um momento de iluminação. Perceber essas repetições e fazer o furo, não reproduzi-las mecanicamente, liberta. Porque aí, sim, há escolha. E em tempos de uma classe média que tantas panelas bateu nas janelas – a imagem própria do desespero –, não parece haver escolha, mas mera reprodução. Por isso, em meio a essa embriaguez burguesa (classista, racista, machista, fascista), será preciso muita riqueza de espírito interior pra despertar do transe e exercitar a capacidade de discernimento. Pra perceber as bifurcações no caminho, as opções de desvio que existem, sempre.
Suspeito eu que a maneira de vê-las é olhar pro outro, pro diferente e, ao mesmo tempo, pra dentro – sem medo. Porque, no fundo, é a mesma coisa. Reconhecer o diferente é um ato íntimo. E só daí sairá algo novo.

Cultura de Estupro: 7 traços que os homens reproduzem sem querer no cotidiano

Uma triste verdade: a cultura do estupro está inserida historicamente em nossa sociedade. Talvez os homens não concordem, e até mesmo algumas mulheres, mas a questão é que, quando falamos sobre um mundo ocidental, patriarcal, aparentemente se mostra que os homens são melhores ou mais importantes em determinados sentidos que as mulheres. Apesar de haver uma grande luta, que nos últimos anos tem ganhado cada vez mais força,na tentativa de conscientização da sociedade em relação à igualdade de gêneros, os preconceitos ainda permanecem fortemente arraigados ao convívio social.
7 traços da cultura de estupro que os homens reproduzem sem querer no cotidiano
A probabilidade de você não concordar com isso é grande, mas com certeza conhece alguém que ainda sim. Como por exemplo, o homem é quem deve prover o sustento da casa, da família. Ou em situações menores, como um pneu furado na estrada, tanto por parte dos homens quanto das mulheres, eles dizem que ela não sabe e, por sua vez, ela acata esse pensamento dizendo que não faz parte de sua alçada aprender esse tipo de coisa. Uma questão: com exceção dos órgãos reprodutores, em que, necessariamente, se diferenciam biologicamente os organismos masculinos e femininos?
Determinadas situações são extremamente constrangedoras e embaraçosas, trazem à tona preconceitos e medos que não são dialogados em sociedade. De acordo com a legislação brasileira, é considerado estupro:

Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso:

Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.

§ 1o Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos:

Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos.

§ 2o Se da conduta resulta morte:

Pena – reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos.


Muitas vezes, uma pessoa sofre estupros constantes sem mesmo saber que o está. O mais comum são casos como: festas, trabalho e até dentro da própria casa. O ato de reproduzir esses traços culturais podem acontecer tanto contra os homens quanto contra as mulheres. Mas, com certeza, 99% das vezes, repugnantemente, acontecem contra as mulheres.
Confira abaixo a seleção que a redação da Fatos Desconhecidos preparou e se surpreenda com alguns traços da cultura do estupro que os homens reproduzem sem querer no cotiano e que passam despercebidas no dia-a-dia.

1. Coisa de menina02-60-600x430

Se vestir bem, se cuidar, ser recatada. Não sentar de pernas abertas, não subir em árvores, não brincar de bola na rua. Bonecas, cházinhos, brincar de casinha, maquiagem. Dançar balé ao invés de praticar artes marciais. Usar rosa e amarelo ao invés de azul e verde. As meninas devem aprender a “servir”, ajuda nas tarefas da casa, obedece pais e irmãos, por serem homens.

2. Mulher casta03-61-600x400

Desde sempre é ensinado às mulheres que elas devem ser castas, seletivas, honradas. Devem escolher o parceiro com cuidado e detalhadamente. Caso contrário, se torna puta, vagabunda, piranha, etc. Enquanto os homens, com quanto mais mulheres se envolvem, frequentam bordéis, vão às festas, mais “machões” eles são, devem ser pegadores para se provarem viris.

3. Roupas04-55-518x500

Criticar as roupas de uma mulher, porque é curta de mais, decotada, ou porque a idade dela já não combina com aquele tipo de roupa. Quando alguém fala “Essa roupa está muito curta.” é a mesma coisa de dizer que “Mas também, com minissaia à noite, pediu para acontecer”. Pelo fato de que o corpo da mulher é de propriedade dela, de mais ninguém. Não existe homem, pai, namorado, marido, no mundo que tenha poder sobre o que ela faz ou deixa de fazer em relação ao próprio corpo.

4. Objetosmaxresdefault-5-600x338

Talvez um dos piores traços da cultura do estupro, objetifica o corpo da mulher. É muito comum ver esse tipo de coisa acontecendo em propagandas de cerveja, com a famosa “Globeleza”, etc.

5. Cantadas

As famosas cantadas de pedreiro, tiram a liberdade e, na maioria das vezes, ao invés de servirem como elogio, acabam insultando aquelas que por ali passam. Os homens fazem isso por acreditar que é de direito deles, é a prova mais fiel da crença de poder e dominação sobre a mulher.

6. Desumanizar07-84-600x336

Quando os esteriótipos, as características físicas da mulher definem o que ela é. Como por exemplo: loira gostosa, gordelícia, bonita e burra, são exemplo de objetificação da mulher. Esse é um dos piores tipos de sexismo, porque ele vem disfarçado de brincadeira.

7. Silêncio08-64-600x450

É preciso começar desde já, abrir a boca, falar, não ter medo nem vergonha. O silencio é o pior inimigo nessas horas. Não denunciar é a mesma coisa de ser cúmplice. Seja um puxão no cabelo, uma piada sexista ou tentativa de tratar a mulher como objeto, esses e outros atos são atos machistas e contribuem para a cultura do estupro.
Provavelmente nem todos vocês irão concordar, mas o pior cego é aquele que não quer ver. Essas características, como dissemos anteriormente, estão incrustadas em nossa cultura social e cabe a nós desmistificarmos. Claro que as coisas não mudam do dia para a noite, mas o mais importante é começar.

Estratégia evangélica é ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário, diz pesquisadora

A vitória do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, na eleição municipal do Rio é um passo fundamental na estratégia do segmento evangélico de ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário.

Por THAIS BILENKY - Folha de São Paulo

Para a pesquisadora Christina Vital, 42, da Universidade Federal Fluminense, que estuda a atuação política dos neopentecostais, conseguir chegar à Presidência da República é importante para eles como estratégia para barrar no Supremo Tribunal Federal temas de minorias -como a pauta gay- que travam embate com esses religiosos.

O crescimento do PRB, partido ligado à Igreja Universal, porém, causa tensão entre outras denominações, que se veem ameaçadas por seu poderio político e econômico.

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Folha - Qual é a consequência da vitória de Marcelo Crivella no Rio para os evangélicos na política?

Christina Vital - Há uma tensão diante do crescimento do PRB. A Iurd [Igreja Universal do Reino de Deus, ligada ao partido] vem comprando horários em outras emissoras, não só na Record, encarecendo-os, fazendo uma gentrificação do espaço público.

Muitas lideranças da Assembleia de Deus e outras denominações veem com apreensão o crescimento de uma corrente que não lhes representa e é avassaladora em termos econômicos e de ocupação do espaço público.

Mas, por outro lado, desde pelo menos 2014, há um investimento de importantes lideranças evangélicas em torno de unidade para ocupação dos Executivos. No Legislativo, é mais fácil, você fala para um núcleo. Para o Executivo, tem de conciliar a fala para a base religiosa com a fala para a sociedade em geral.

Essa unidade pode crescer para 2018?

A possível candidatura presidencial de 2018 em torno do [deputado do PSC-RJ, Jair] Bolsonaro é talvez mais representativa de um movimento de unidade de diferentes denominações.

A Assembleia de Deus, a Sara Nossa Terra e a Igreja Batista já o apoiam. Até o momento, a Universal do Reino de Deus consegue ser inimiga de católicos e de outros evangélicos. Tem uma condição muito singular. E pensar que teve queda no número de fieis desde 2000. Os religiosos da Universal dialogam para muito além do universo religioso. Têm uma pauta mais conservadora, neoliberal.

Os resultados municipais de 2016 evidenciam uma mudança na estratégia, com discurso mais moderado ou perfis mais palatáveis para o eleitorado que não é evangélico?

Sim, eles adotaram um jogo de visibilidade e ocultação da identidade evangélica dos candidatos. Crivella não se registrou na Justiça como bispo Crivella, diferente do que fez o pastor Everaldo [candidato presidencial do PSC em 2014], que, no registro, já ativou o lugar dele na hierarquia religiosa.

Em uma candidatura majoritária, não se pode ter referência apenas em uma base, você tem de falar para um público mais geral. E aí eles ativam elementos que não são evidentemente religiosos, como a forte inclinação para falar do cuidado com as pessoas, da atenção, e motivação da individualidade.

Em 2011, Crivella disse que Lula ajudou a Universal a se expandir dentro e fora do Brasil. Além disso, dirigentes do PSDB o apoiaram no segundo turno. Em que medida políticos tradicionais facilitaram o crescimento de quadros evangélicos no país?

Os evangélicos estão na política há muitos anos, tiveram papel importante na Constituinte e foram ganhando espaço desde então. Mas, a partir do primeiro mandato do ex-presidente Lula, os evangélicos que, de modo geral, apresentavam-se como minoria em termos percentuais e mesmo do seu lugar na agenda pública, crescem. Coincidência ou não, em 2003, a frente parlamentar evangélica passa por uma reestruturação.

Os partidos e todo candidato têm interesse em números de massa. E as organizações religiosas são em estatística de associativismo das poucas que continuam crescendo.

A ocupação do Executivo mira o Judiciário?

No nosso livro que será lançado, o pastor Everaldo falou claramente na estratégia de assumir a 'cabeça', falou exatamente a palavra 'cabeça', em uma referência à importância da ocupação da Presidência, que é por onde passa a indicação para o Supremo Tribunal Federal.

A gente acompanha o crescimento de mobilização de juízes evangélicos ou sensíveis à causa evangélica na Associação de Juristas Evangélicos, que se espelha na Associação de Juristas Católicos, da qual Ives Gandra Martins é o grande representante.

Desde pelo menos 2006, o Judiciário tem sido o Poder que vinha possibilitando a garantia de direitos de algumas minorias, direitos esses ameaçados, digamos assim, pelo comportamento legislativo. Os evangélicos falam de uma judicialização da política e eles estavam se organizando para combatê-la.

Crivella afirmou que a sua entrada na política foi imposta pela Universal, a despeito de sua resistência. Como se dá a escolha de quadros na igreja para serem lançados?

Há diferentes formas. Uma passa por escolher pastores que têm importante representação na denominação, têm carisma. Outras vezes, as escolhas são feitas por relações familiares entre a liderança religiosa e o nome proposto, como no caso do Crivella, sobrinho de Edir Macedo, fundador da Universal.

Mangabeira Unger apontou benefícios na ascensão de evangélicos por sua 'bênção à prosperidade'. A senhora concorda?

Discordo, porque não entendo que haja necessariamente relação entre a teologia da prosperidade e o desenvolvimento da nação, como se a cultura católica fosse responsável por subdesenvolvimento e o neopentecostalismo, por desenvolvimento econômico. Aí tem uma diferença.

A bandeira de Benjamin Franklin e do calvinismo, que forma a base do discurso do comportamento americano, é muito diferente da teologia da prosperidade, que tem a ver com consumo e ostentação, com individualidade, e não com produção, contenção, disciplina do trabalho e coletividade. Isso é preocupante, não a ascensão dos evangélicos de modo geral.

O PRB em São Paulo lançou o deputado Celso Russomanno à prefeitura, que é católico e tentou se dissociar da religião. Qual é o espaço para o laicismo no partido?

O partido tem um projeto de poder maior que não se sustenta só em torno da religião. Então, a legenda escolhe candidatos com carisma, ampla visibilidade na sociedade, para angariar votos.

As igrejas aumentam a sua influência inclusive entre o crime organizado, e políticos ligados a milícias declararam apoio a Crivella. Até onde vão as concessões de evangélicos nas negociações políticas?

Tem de ter pragmatismo, porque o universo politico demanda aliança, negociação com diferentes segmentos. E aí não dá para ser uma coisa só intrarreligiosa.

Mesmo esses religiosos no Congresso Nacional não representam todos os evangélicos no Brasil em todas as pautas. Na questão do aborto e LGBT, sim, há correspondência. Mas na pauta da arma e da pena de morte, há enorme descompasso, segundo o Datafolha. Os religiosos no Congresso são mais conservadores. Eles têm interesses para muito além do universo religioso, propriamente, passam por interesses pessoais e partidários.

Os evangélicos no Brasil são, em geral, contra a pena de morte, contra a ampliação do armamento e contra o Estado liberal, defendem o Estado protetor. Enquanto a maior parte dos políticos religiosos no Congresso é a favor do liberalismo. Tem um descompasso aí.


Bebês negros eram usados como iscas para caçar jacarés nos EUA

Por Simone Guimaraes

Durante a escravidão e até meados do século vinte, bebés negros foram usados como isca de jacaré no Norte e Centro da Florida nos Estados Unidos de América.



Os caçadores de jacarés roubavam os filhos quando as mães, muitas delas escravas estavam ocupadas com seus afazeres diários. Algumas seriam crianças de um ano de vida ou menos. Outras crianças eram roubadas à noite mediante ataques brutais contra seus pais, de seguida amarravam uma corda em volta do pescoço e ao redor de seu torso junto de uma árvore no pântano ou eixavam-nas em gaiolas como se fossem galinhas.

Como as crianças choravam e gritavam os jacarés apareciam rápido para devora-las, em questões de minutos os jacarés estavam sobre elas. O caçador que se mantinha distante não dava conta da presença do jacaré, já que a caça era realizada a noite, então somente quando o animal atacava a criança e tentava arrasta-la no pântano para devorar ou quando começava a come-la viva é que os caçadores conseguiam se aperceber da presença do mesmo através dos movimentos e esticar da corda. Somente nesta altura que eles partiam em direção ao bebe e matavam o animal.

Bebês negros eram usados como iscas para caçar jacarés


A revista Time, em 1923, relatou que os caçadores da cidade de Chipley, Flórida, praticavam tais atos, mas a cidade negou-o como “uma mentira boba, falsa e absurda.”

A prática tem sido documentada em pelo menos em três filmes: “Alligator Bait” (1900) e “O ‘Gator eo pickaninny” (1900). E a história de dois meninos negros que serviam de isca de jacaré foi contada em “Fúria Untamed” (1947).

Na verdade, o termo “isca de jacaré” era comum em todo o Sul dos estados unidos, pelo menos, da década de 1860 até ao ano de 1960 foi um insulto racial e uma ameaça que os brancos usavam para “domesticar” as crianças negras resilientes.

Mas na década de 1940 no Harlem, em New York “, isca de jacaré” aplicada aos negros de qualquer idade – particularmente aqueles que eram da Flórida.

Finalmente, em termos de iconografia, a partir de, pelo menos, a década de 1890 até os anos 1960, as crianças negras eram frequentemente retratado como isca de jacaré nos brinquedos para as crianças brancas, saboneteiras, escovas de dentes, cinzeiros e, especialmente, em cartões postais enviados através do correio dos EUA.

Whites Used Black Babies as Alligator Bait

Meus sete anos como escrava sexual dos cartéis de drogas do México


Esta matéria foi originalmente publicada na VICE NEWS.



Daniela se lembra de atravessar de carro o deserto do norte do México de olhos vendados, pensando que estava a caminho da morte. Recorda que foi obrigada a descer da van, tirar a venda e seguir os sequestradores armados até uma casa grande, onde então teve que descer para o porão. Ela foi forçada a ver o que estava acontecendo e tentou apagar da mente.

Não deu certo. A cena ainda está na memória — cerca de cinco jovens amarradas a pilares, cercadas de homens que tinham pagado caro não só para estuprá-las, mas também para torturá-las e, quem sabe, matá-las.

Daniela não é seu nome de verdade. Ela insiste em usar um pseudônimo porque, apesar de ter conseguido fugir do terror a que foi submetida, o alcance de seus antigos raptores é grande. O que ela viu naquele dia foi apenas uma das muitas experiências aterradoras pelas quais passou em sete anos de escravidão sexual, primeiro sob controle de Los Zetas e depois, do Cartel do Golfo. O tormento terminou quando ela conseguiu fugir em 2015, voltando para a família na Nicarágua, onde todo pesadelo começou.

"Vi muita gente morrer, e de formas terríveis", diz, tomando chocolate quente e comendo pizza em uma cafeteria na Cidade do México. "Quero contar porque as pessoas precisam saber o que está acontecendo na fronteira com as meninas desaparecidas, e com muitas das meninas que trabalham no comércio sexual nas zonas dos tráfico."

O caso de Daniela está sendo investigado pela procuradoria geral do México, mas se ela tivesse esperado a salvação do governo, muito provavelmente não estaria livre, e viva, hoje.

Quero contar porque as pessoas precisam saber o que está acontecendo na fronteira com as meninas desaparecidas.

Segundo dados do governo mexicano, 20.203 homens e 7.435 mulheres estavam classificados como "sumidos ou desaparecidos" no país no fim de 2015. É basicamente o mesmo número de quando o presidente Enrique Peña Nieto assumiu o mandato em dezembro de 2012, com o compromisso de agir para acabar com os horrores dos desaparecimentos promovidos pelas mãos dos cartéis de drogas. As promessas se intensificaram depois que o desaparecimento em massa de 43 estudantes em setembro de 2014 na cidade de Iguala, no sul do país, desencadeou a indignação nacional e internacional.

São recorrentes as duras críticas de grupos de direitos humanos do México e do exterior às autoridades do país por não atuarem com mais empenho na busca pelos desaparecidos. No começo de agosto, 68 membros do Congresso dos EUA assinaram uma carta endereçada ao secretário de Estado norte-americano John Kerry sobre a "atual crise de direitos humanos no México". O texto começa com uma referência aos desaparecidos.

Quem some raramente volta para contar a história. Os motivos dos sequestros variam, mas muitos são raptados para fins de escravidão sexual. A história de sobrevivência de Daniela é ao mesmo tempo extraordinária e angustiante.

Daniela conta que ela mesma ficou chocada ao descobrir a duração de seu suplício. Ela havia estimado quatro ou cinco anos, mas os sequestradores deliberadamente confundiam a passagem do tempo para ela.

"Às vezes, quando estava com um cliente, eu descobria em que mês ou ano estávamos, porque ele acabava falando na conversa, mas se me ouviam perguntando, eu apanhava bastante", recorda. "Não tinha rádio nem televisão [onde eu estava], jornal, nada. Eu dormia em uma das casas deles, eles me levavam para fazer coisas horríveis com os clientes, tiravam meu dinheiro e depois me levavam de volta para dormir."
O início do inferno

Tudo começou quando Daniela tinha 22 anos e passava dificuldades para sustentar os filhos e a mãe, trabalhando como costureira em uma fábrica voltada para exportação perto de sua cidade natal na Nicarágua.

Era abril de 2008 e o país de Daniela mantinha relativa distância da violência brutal que já assolava regiões do México e países vizinhos na América Central. Então a jovem não tinha muitos motivos para ter cautela quando aceitou um convite para uma reunião em que, segundo lhe disseram, ela passaria por uma avaliação para assumir um empréstimo.

As 15 jovens que participaram daquela reunião perto da fronteira com Honduras foram sequestradas.

Homens armados tomaram seus documentos de identificação e deram calças jeans claras, camisetas e bonés de beisebol brancos para elas vestirem. Ameaçaram matar as famílias das jovens se elas não seguissem instruções detalhadas durante a travessia de postos fronteiriços em Honduras, depois Guatemala, Belize e, finalmente, México.

Dois dias depois do início da viagem, elas pararam na cidade de Comitán, no sul do estado mexicano de Chiapas, e foram colocadas para trabalhar em prostíbulos escuros e sujos. Daniela diz que elas eram espancadas quando demonstravam inexperiência. Duas semanas depois, o grupo continuou a viagem rumo ao norte. Daniela conta que foi a última a ser entregue aos novos mestres, em Nuevo Laredo, no estado de Tamaulipas, na fronteira com o Texas. Foi só então que ela descobriu que estava em poder do cartel Los Zetas.
O cartel

Os Zetas foram formados nos anos 90 por um grupo de desertores das forças especiais recrutados pelo Cartel do Golfo para proteger o então líder do grupo, Osiel Cárdenas. Quando capturaram Daniela, já eram uma organização criminosa famosa pela inclemência dispensada aos inimigos e exerciam poder sobre a população que vivia em suas fortalezas, das quais a mais importante era Tamaulipas.

Nada durante a entrevista afeta tanto Daniela quanto falar sobre o menino que ela considerava um irmãozinho, quando os dois trabalhavam na boate Danash, no centro de Nuevo Laredo. Ela o conheceu quando ele tinha apenas 12 anos e a lembrança a leva a soluçar.

Daniela tinha que dançar, beber e ficar chapada com os clientes, além de cumprir uma cota de seis serviços sexuais prestados por noite nos cubículos do clube. O menino era ajudante, mensageiro, vigia e DJ — e também era alugado para os clientes, muitos dos quais, turistas norte-americanos em busca de sexo com crianças.

Vi muita gente morrer, e de formas terríveis.

Daniela e seu irmão de consideração surrupiavam conversas furtivas quando seus sequestradores não estavam atentos. Fantasiavam com a liberdade. Ajudavam um ao outro a sobreviver.

Quando o menino teve problemas digestivos que o impediram de trabalhar, homens armados do cartel levaram-no junto com Daniela para a área montanhosa nos arredores da cidade.

Lá, deram uma arma para Daniela e ordenaram que ela o matasse. Quando ela se negou, deram a arma para o adolescente e disseram para ele a matar. Quando ele também se recusou a atirar, os homens o enforcaram em uma árvore e começaram a cortá-lo. Por fim, então, eles o mataram.

"Nunca mais ouvi falarem nada sobre ele", conta.

Mais tarde, Daniela descobriu que a ordem para matá-lo era um teste para ver se ela poderia, de escrava sexual, se transformar em sicaria, como são chamadas as assassinas de aluguel. Quando ficou claro que ela não cumpria os requisitos, o cartel atribui-lhe a função de contrabandear drogas. Esse é um padrão comum, no qual as vítimas do tráfico sexual são forçadas a realizar outros crimes quando envelhecem e passam a ganhar menos dinheiro para seus raptores.

Daniela conta que o novo trabalho a colocou em contato com líderes do cartel de nomes bem conhecidos da polícia, como Z-40, Metro 3 e Catracho.

Ela também conheceu um Zeta chamado de La Ardilla, e diz que viu quando ele ordenou o massacre de 72 migrantes centro-americanos em agosto de 2010. Mais tarde, ela contou às autoridades que os assassinatos foram encomendados porque o traficante acreditava que as vítimas eram reforços de seus inimigos.

O massacre ocorreu quando os Zetas e o Golfo travavam uma guerra generalizada depois do rompimento entre os dois cartéis no início daquele ano. A disputa incluía batalhas imensas com transporte de homens fortemente armados em comboios com dezenas de veículos de uma só vez.

O início de Daniela na guerra foi como escrava/amante escolhida por um comandante do Zeta de apelido El Viejón. Quando o traficante decidiu mudar a lealdade para o Golfo, ela inevitavelmente foi junto.

Pensei que já estava morta mesmo, então deixei que eles fugissem e se escondessem.

Ser identificada como propriedade pessoal de um chefe do cartel significa que implantaram um chip rastreador no pé de Daniela. Isso não a liberava, no entanto, da obrigação de fazer sexo com outros clientes também. Na verdade, as condições do bordel em que ela trabalhava ficaram ainda piores depois que o Golfo assumiu, apesar da reputação mais sangrenta dos Zetas.

Daniela conta que os novos chefes filmavam os clientes desde o momento em que eles entravam no bar. Os quartos tinham microfones e câmeras escondidas.

Ela relata que as mulheres tinham que assistir a vídeos de torturas e assassinatos de pessoas que tentavam fugir. Adquirir vícios também levava a desaparecimentos para sempre. E havia também as vítimas de clientes que pagavam para torturá-las e matá-las, como as mulheres que ela vira no porão em meio ao seu suplício. Daniela afirma que os raptores uma vez lhe mostraram um vídeo de um capanga alimentando um leão mantido em um esconderijo na cidade de Reynosa com partes de um corpo.

Embora diga que fez o possível para não arranjar problemas, Daniela conta que uma vez procurou a própria morte quando recebeu ordens de vigiar um casal que havia sido sequestrado.

"Era a primeira vez que me mandavam vigiar alguém e eles estavam muito tristes", relembra. "Pensei que já estava morta mesmo, então deixei que eles fossem embora. Deixei que eles fugissem e se escondessem."

Ela conta que esse ato de rebeldia lhe rendeu um espancamento terrível e uma viagem para o interior, onde El Viejón entrou em um trator e ameaçou passar por cima dela. Depois ele mudou de ideia e mandou que ela passasse horas de joelhos na frente de membros do cartel, para em seguida ser trancada em uma van sem nada para comer nem beber até quase a morte.

Passado o castigo, conta Daniela, ela teve que voltar a trabalhar no bordel.



De acordo com o relatório mais recente do governo mexicano sobre tráfico sexual no país, que data de 2014, existem 47 grupos criminosos identificados envolvidos com esse mercado de escravos sexuais, com líderes identificados na América Central, no México e nos Estados Unidos, e a participação de bares e boates nos raptos em toda a fronteira norte do país.

Daniela não tem certeza se algum de seus clientes sabia que ela era escravizada, mas acredita que alguns suspeitavam. Ela diz que às vezes ficava claro que eles tinham visto seus hematomas — apesar de não apanhar no rosto e dos cubículos serem escuros — mas faziam vista grossa. E pedir ajuda, conta a moça, estava fora de cogitação, embora às vezes ela tenha tentado transmitir seu desespero pelo olhar.
Fuga

A jovem não dá detalhes de como conseguiu finalmente escapar, tirar o chip do pé e fugir em segurança. Ela só diz que uma pessoa arriscou a própria vida para ajudá-la. "A pessoa me tirou daquele lugar, pagou meu transporte para a Cidade do México." É tudo que ela conta. "Se eu disser mais alguma coisa, vão matar essa pessoa e eu jamais me perdoaria por isso."

Ela tem bons motivos para temer pela vida de quem a salvou. A violência continua implacável em Tamaulipas, mesmo após o fim da guerra entre o Golfo e os Zetas, agora substituída por uma multiplicidade de batalhas entre diferentes facções dos dois cartéis.

Daniela também não conta detalhes sobre como acabou levando sua história para investigadores federais na Cidade do México. Inicialmente, afirma a jovem, ela foi enviada de volta para a Nicarágua, mas seu caso foi reavivado depois que uma ONG mexicana que atua no combate ao tráfico sexual bateu à sua porta.

Os ativistas conseguiram convencê-la a entrar em contato com um promotor especial em crimes sexuais. Sua esperança, diz ela, é que as investigações levem à liberdade de mulheres que, acredita a jovem, ainda estão desamparadas em cativeiro.

Daniela diz que sua família registrou o desaparecimento na Nicarágua logo que ela sumiu. Eles também falaram com um canal de TV local e divulgaram cartazes. Depois de um tempo, ela foi dada como morta. Como muitos centro-americanos que desaparecem no México, Daniela nem sequer foi computada no país como os outros 28 mil desaparecimentos registrados.

Daniela relembra a incredulidade da mãe quando ela ligou da delegacia de polícia na capital mexicana. Ela só começou a acreditar quando começaram os relatos de antigas lembranças, como o vestido longo demais que ela havia feito para o 15° aniversário da filha.

"Filha, você está viva!" Daniela recorda o choro da mãe quando a ficha finalmente caiu. "Estou, estou aqui, mãe. Estou aqui."

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